Este blog mudou de nome.
Mas persisto na pretensão de que este espaço possa continuar a ser um despretensioso ponto de Permanente Reencontro de amigos, que vá servindo para dar à tramela.

"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Tendências de "administração" dos professores

«Desde o início do século XXI, têm surgido novas tendências de "administração" dos professores, cruzando três lógicas distintas.

A primeira é o reforço de dispositivos de avaliação, acentuando não os processos de desenvolvimento profissional, mas o estabelecimento de hierarquias dentro do professorado. Num contexto marcado pela omnipresença de indicadores internacionais, estes dispositivos tendem a evoluir para uma remuneração em função dos resultados escolares dos alunos. 

A segunda é a intensificação do trabalho dos professores, que vem atingindo níveis impensáveis, seja por via de uma escola transbordante, que quer fazer tudo, seja por via de uma burocratização crescente da vida escolar e docente.

A terceira é a inflação de materiais didácticos e pedagógicos, impressos ou digitais, que se destinam a "facilitar" a acção docente, mas que representam uma diminuição da autonomia dos professores e do seu trabalho profissional.

Ainda que por vias diferentes, todas estas políticas têm consequências nefastas na vida dos professores. Mais do que nunca, é necessário reforçar a profissionalidade docente, através de dinâmicas colaborativas e de uma maior participação dos professores na vida das escolas e nas políticas públicas de educação.»
António Sampaio da Nóvoa
(intervenção no congresso dobre a actividade docente em todos os níveis de ensino, organizado pela Fac. de Psicologia e de Ciências da Educação da Univ. do Porto)


domingo, 12 de novembro de 2017

O Panteão Nacional... para lá da (actual) polémica

Santa Engrácia viveu ao sabor do tempo, dos sucessivos atrasos da sua construção e dos acasos da sua ocupação/função, nem sempre de acordo com a sua nobreza ("o mais belo dos nossos monumentos do século XVII", segundo Ramalho Ortigão) - quartel, depósito de material de guerra, oficina de calçado...

Santa Engrácia tem uma longa história de tolerância. Um jantar é só um pequeno pormenor, um fait-divers em que somos pródigos.
E essa prodigalidade floresce quando parece que alguém descobre a pólvora e consegue criar um alvoroço que percorre as redes sociais - o agitar de asas da borboleta -, contagia os meios de comunicação social, entidades muito sensíveis a esses bater de asas e... depois, alguém se lembra que a pólvora há muito que foi descoberta. E dá-se o bater de asas de sinal contrário. 
Porque, afinal, jantares e festas já lá houve muitos (por que razão se fizeram tabelas de preços?), tendo passado despercebidos. A memória é curta ou o conhecimento é pouco. 
Mas, pelo menos, tivemos assunto de conversa para o fim de semana e ainda ficam os ecos.

Se não me parece desadequado? Parece!




Por acaso, isto é, levado por Manuel de Arriaga, fui lá ontem, ainda mal informado do jantar de encerramento da (ou do?) Web Summit

Ao acaso de diferentes contextos políticos se tem decidido sobre as personalidades cujos restos mortais aí devem repousar - que critério para juntar Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona? 
Isto a propósito de Presidentes. Porquê estes (ou só estes), dois a dois de "sinais" tão contrários?

E os escritores? Garrett, João de Deus, Junqueiro, Aquilino, Sophia... 
Mas por que não aquele e o outro, Saramago, por exemplo, que foi Nobel, mais oitocentistas - Eça, Herculano, Camilo - ou Torga, Raul Brandão, Pascoaes, Vergílio Ferreira... ou Nemésio, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis... 

Por que não artistas plásticos? Amadeo, Almada, Vieira da Silva...
E por que não cientistas, filósofos?
Vamo-nos lá lembrar... 

Já lá estão a Amália e o Eusébio, tendo este último animado (involuntariamente, coitado, porque o próprio nem chegou a saber) a discussão sobre os critérios que devem levar à decisão de "pantear" os nossos cidadãos mais ilustres. 
Quem será o próximo? 


Voltemo-nos para o já esquecido sorriso das vacas!
Fiquemos pelas vistas:








A vista do terraço permanecerá.
Independentemente das (ou dos?) Web Summits, dos "tumulados" (e "destumulados") no Panteão, dos cruzeiros, com ou sem terminais..., ou de alguma névoa sobre o rio...


P.S. - De quem se encontra no Panteão, creio que só me faltou referir Humberto Delgado. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A Revolução Bolchevique

Há poucos dias (31 de Outubro) celebraram-se os 500 anos da revolução luterana.
Nunca Lutero terá pensado que, ao pregar na porta da igreja do castelo de Wittenberg as 95 teses contra a venda de indulgências pelo papa, iria dar início a uma transformação que ultrapassou o estrito campo religioso e abalou o mundo ocidental.

Desde então, na esfera política e social, a Francesa e a Russa foram as revoluções que se seguiram e moldaram os dois últimos séculos.

Da Revolução Russa comemoraram-se ontem os 100 anos.
De França permanece o ideal da trindade Liberté, Egalité, Fraternité.
Nos dias de hoje, há quem se interrogue se Outubro chegou (mesmo) ao fim.


«Aparentemente, só era preciso um sinal para os povos se levantarem, substituírem o capitalismo pelo socialismo, e com isso transformarem os sofrimentos sem sentido da guerra mundial em algo mais positivo: as sangrentas dores e convulsões do parto de um novo mundo. A Revolução Russa, ou, mais precisamente, a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, pretendeu dar ao mundo esse sinal. Tornou-se, portanto, um acontecimento tão fundamental para a história deste século quanto a Revolução Francesa de 1789 para o século XIX. Na verdade, não é por acaso que a história do século XX (...) praticamente coincide com o período de vida do Estado nascido da Revolução de Outubro.
(...) A Revolução de Outubro produziu de longe o mais formidável movimento revolucionário organizado na história moderna.»
Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos - História breve do século XX 1914 - 1991


terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Revolução de Outubro em Novembro

Há 100 anos...



A 7 de Novembro de 1917, pelo calendário gregoriano, 23 de Outubro pelo calendário juliano, em vigor na Rússia de então, os bolcheviques, comandados por Trotski, tomaram de assalto o Palácio de Inverno, sede do Governo, e outras posições-chave.

À noite desse dia, os sovietes, reunidos em congresso, confiavam o poder a um Conselho de Comissários do Povo chefiado por Lenine.



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Agarrados!



Catalunha candidata ao Nobel do disparate político

Pior era difícil!
"Tiros no pé", "golos na própria baliza", as expressões que quiserem... 


Quando os independentistas estão na mó de baixo, o Governo espanhol faz disparate, de forma a reanimá-los.

Quando o Governo espanhol está sob a mira da crítica, os líderes(?) independentistas resolvem disparatar, de forma a dar argumentos ao poder central.


domingo, 29 de outubro de 2017

Marcelo Rebelo de Sousa põe em risco a nossa independência!!!

Não sabemos qual foi a forma de contacto com o rei Filipe IV - o jornal diz que foi de "viva voz", mas Filipe IV já está tão morto que terá sido numa sessão à volta de uma mesa pé de galo!
O Público online dava conta da posição do Presidente da República em relação à "unidade do Estado espanhol".
Marcelo Rebelo de Sousa, sendo favorável à manutenção dessa unidade, não apoia os Conjurados na luta pela independência de Portugal, o que não deixa de causar surpresa e põe o seu lugar em risco!
Filipe IV de Espanha, portanto, Filipe III de Portugal, pode estar descansado por esse lado. Não é por Marcelo que a União Ibérica está em causa e que existirá um 1.º de Dezembro!



sábado, 28 de outubro de 2017

Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (3) - Camilo Pessanha

«(...) creio que só a Camilo Pessanha amei em segredo como mestre.»



«(...) ele coara de todo o sarro as poéticas fin-de-siècle, que eram as do seu tempo, o que nem Pessoa nem Sá-Carneiro haviam conseguido, relativamente ao tempo deles, com tal perfeição. Mas a sedução maior daquela alquimia estava na sua magistral capacidade de sugerir, de insinuar, de não concluir o que fora começado a dizer, como se dizer não fora para Pessanha o que mais importava. Era a indecisão tornada matéria de poesia, criando-se com esta reticência, uma hesitação entre pensar e sentir. Nunca no corpo do poema o rigor se aproximara tanto do abandono, como se nenhuma elaboração preexistisse àquela trama de misteriosa transparência, como se as palavras desde sempre estivessem apenas destinadas ao ritmo daquela "água morrente", o que eu já sabia ser impossível.»

Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio


Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (2) - António Nobre

«Uma ou outra vez a voz insinuante de António Nobre me seduziu: foi quando descobri o singular ritmo dos seus versos - o ritmo de quem embala ao peito as próprias mágoas, que teimam em não adormecer.
Se à sua visão falta fundura, a melodia nela sobe, sobe, sem hesitações, e diz o que tem a dizer com uma comovida e dificílima naturalidade.»



«Como não reconhecer em António Nobre um mestre, um mestre da sensibilidade portuguesa?»


Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio


Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (1) - Raul Brandão

«Era um poeta - às palavras estava condenado, mas só elas o poderiam salvar. Só nas palavras a treva do seu ser abria para a luz. E não era a luz toda a ternura do mundo? Por isso se lhes abandonava, com uma confiança que nunca dera à vida. Quando, oh quando poderia regressar ao azul limpo dos seus olhos, sem tropeçar na angústia mais viva? Que voz o poderia reconduzir aos dias em que a consciência de existir não era ainda consciência de ser uma só e paciente espera da morte? Contra a morte só tinha palavras - as que lhe subiam à boca. Na "noite velha" cantava. Cantava para sua mãe que, debaixo da terra, talvez o ouvisse ainda; cantava para o Nel, que depois de tantos anos ainda o via subir às figueiras, aos figos lampos, para lhe dar; cantava para aquela velhinha que lenta, lentamente, subia a ladeira apoiada numa bengala. Cantava para a transparência do mundo.»

Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio



Gigantes

«1867, Um Ano de Gigantes» foi o título de um congresso organizado, esta semana, pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias - CLEPUL (da Faculdade de Letras de Lisboa), que assinalou os 150 anos do nascimento de três nomes grandes da literatura portuguesa: Raul Brandão, António Nobre e Camilo Pessanha, por ordem cronológica.

Vivendo na mesma época, foram três personalidades bem distintas que construíram, cada um per se, uma obra original e precursora, que reflecte os respectivos universos particulares.

«Os seus percursos autorais configuram importantíssimas respostas a um momento de confluências e transições, que passam pela receção crítica da cultura portuguesa em sentidos convergentes e distintos dos ensaiados ao longo do século XIX, em particular pela Geração de 70, pela imagem que deles foi feita por parte dos mais representativos escritores das primeiras décadas do século XX, e pela renovação que deram aos géneros e formas consagrados, antecipando em muitos aspetos o que de mais moderno e singular se produziria ao longo de Novecentos.» 
(do programa do congresso)


Eyes Wide Shut





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Complexidade político-social

Greve da Função Pública



À oposição agrada a realização da greve - é uma acção contra a política do Governo (uma jornalista da Antena 1 dizia "é a primeira greve contra António Costa"!) e mais um factor de desgaste.

À oposição não agrada a política do Governo de reposição de direitos e regalias dos funcionários públicos. Portanto, não lhe deverá agradar o sucesso da greve.

A oposição está pelo Governo ou pelos funcionários públicos?
Abstém-se, porque pensa que tudo é mau?

1 X 2 - jogo de tripla?


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Júlio Resende - No cavalete, um espaço num desafio


«No cavalete, um espaço num desafio. Os pincéis estão ao alcance da mão. O homem subsistirá numa progressiva ascensão enquanto existir a arte como imagem do espírito, como paradigma da fraternidade universal e sinal de transformação...»
Júlio Resende





Casa-atelier Júlio Resende, local de vida e de trabalho do pintor entre os anos 1962 a 2011 (Gramido, Valbom - Gondomar).


Júlio Resende - centenário do nascimento



«Nasci a 23 de Outubro na Trav. de Sá de Noronha, número 14, na cidade do Porto. Era o segundo filho de um casal curioso. Meu pai, de nome Manuel Martins Dias, era um pequeno comerciante de fazendas e camisaria, com estabelecimento aberto nos baixos do prédio. Passara de caixeiro esforçado e diligente, tempos atrás, à sua independência, talvez sonhada… O estabelecimento dispunha de uma montra e duas portas. Não era, decididamente, dotado de perspicácia e sorte para o comércio.
Minha mãe, Emília Resende da Silva Dias, por seu lado, era o que poderá dizer-se uma mulher singular. Incrível que pareça, recebera de meu próprio pai, em menina, as primeiras noções de música. Entre ambos havia uma notória diferença de idade.»
Júlio Resende, Autobiografia



domingo, 22 de outubro de 2017

Impressionante!...


Não estamos habituados a estes níveis em modalidades técnicas.
Digo eu (pode ser ignorância!)


E a mulher teve sorte!...

Cometido o adultério, podia ter sido lapidada, punida de acordo com a lei bíblica, morta ao abrigo do Código Penal de 1866... 


Excerto do acórdão da Relação do Porto:





A propósito de reformas florestais, incêndios, ataques políticos...

... tudo em literatura!

«Meteu a passo, primeiro, depois onde o caminho era recto e areado a galope. À desbanda de Urrô, dentro do Perímetro, entrou por um atalho e suspendeu-se numa clareira. Apeou-se e prendeu a égua. Ajuntou mato, carquejas, ramos secos, que havia por um lado e outro em pleno bastio. Acendeu um fósforo, viu as primeiras flamechas, voltou a cavalgar, e toca rumo ao Norte. Repetiu a cena em Azenha. Tomou em seguida o caminho da floresta e, inflectindo a Rebolide, acendeu nova fogueira. Depois, por ali fora, pôs-se a contornar o Perímetro. Em Valadim das Cabras, olhando dum alto, lobrigou na noite o clarão dos incêndios. Exultou. A atmosfera enrubescia. (...) Cavalgou de novo e repetiu a façanha sucessivamente em Ponte do Junco e Favais Queimados. Nas vizinhanças de Almofaça apercebeu-se de um alarido crescente, em catadupa. Eram os socorros que partiam exaustinados, sem objectivo certo, para Cheleira do Negro e Fusos do Bispo. Esgueirou-se para dentro do pinhal, lá longe, onde a égua punha um vulto confuso ou se desvanecia nas sombras da noite. Assim que passaram, voltaram à sua rota.
Seriam quatro horas da manhã e o setestrelo já virara no céu. Faltava-lhe Bonfim das Pegas e torceu para lá de rédea solta por uma ensarilhada de caminhos que tivera de estudar e conhecia como as palmas das mãos. Arrebanhou como das outras vezes carqueja, giestas secas, caruma e sargaços, e acendeu o morouço de mato a meio do bastio. Quando viu os pinheirinhos a estoirar e arder como archotes, toca mais adiante!
Nas vizinhanças de Portela do Beltrão, a três quilómetros de Arcabuzais, a selva crescera tanto que lhe dava muito por cima da cabeça. O tojo era alto e ressequira no pé. E nem se deu ao cuidade de amontoar a lenha. Pegou o fogo a uma tojeira e dali a pouco a chama difusa corria a toda a frente, alterosa ou baixa, tocada pelo vento. (...)
Fechou-se em casa magicando, inundado de mais regozijo e tumulto que um bando de pássaros ao respigo de uma cerejeira. Quantas léguas percorrera naquelas seis horas? Umas vezes a trote, outras a galope, devia ter cursado adentro do Perímetro um dédalo de veredas que somaria mais de trinta quilómetros. A horas de sair dos gados, depois de comer e beber do surrão, foi ter com o rendeiro da sua horta. Regateou com ele, ajustou, beberam o alvaroque. Chegou um passageiro que falou do incêndio que lavrava de lés a lés da floresta. Se lhe não acudissem, era a ruína total duma obra custosa de alguns anos e muito dinheiro. Mas os Serviços abstiveram-se de pedir socorro às aldeias, supondo-as conjuradas na malfeitoria. Apelaram, sim, para quantos bombeiros havia em vilas e cidades, desde a Guarda a Vila Real. À noitinha, a serra dos Milhafres era um pavoroso mar de chamas. O calor sufocava. Já os primeiros rescaldos, empestando a atmosfera, exalavam um hausto envenenado, que era molesto respirar.»
Aquilino Ribeiro, Quando os lobos uivam

Arborização de baldios (sem data)
Imagem de Floresta Portuguesa - imagens de tempos idos,
da colecção Árvores e Florestas de Portugal (Público)

Neste romance de Aquilino Ribeiro, acabado de escrever em 1958, os beirões, perante o Plano de Povoamento Florestal da ditadura do Estado Novo (iniciado em finais da década de 1930), fazem a defesa dos terrenos baldios que sempre tinham sido utilizados pela comunidade de forma a deles retirar parte vital do seu sustento e de que então seriam "expropriados".
A revolta popular acontece, mas a reacção policial também e as consequentes prisões.
O velho Teotónio vinga-se provocando os incêndios.
Trabalhos de arborização na serra do Marão (sem data)
Imagem da mesma fonte

O livro, "um romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política", foi censurado.

«É evidente que, se o original tivesse sido submetido a censura prévia, não seria autorizado, porque é, talvez, a obra de maior ataque político que ultimamente tenho lido.»

Relatório dos serviços de censura (Fevereiro de 1959)

Com base no relatório, não foi autorizada a reedição, não foram permitidas críticas na imprensa e foi dada ordem de apreensão dos exemplares que ainda existiriam.
A obra valeu um processo criminal a Aquilino Ribeiro, por "desacreditar as instituições vigentes".


Oportunidades... (que nos deixam a pensar)





«Quatro meses depois dos incêndios de Pedrógão, rebentam eucaliptos, fenos e silvas. Operários e camionistas cortam e carregam árvores. A maioria dos imóveis atingidas continuam destruídos. População está ainda mais isolada.

O silêncio é o mesmo, a tristeza nos olhos das pessoas também. A diferença é que, agora, se ouve o barulho das motosserras e camiões com árvores queimadas por todo o lado. Veem-se eucaliptos novos com mais de um metro de altura, fetos e silvas verdejantes. Assim vivem as populações de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, atingidos pelas chamas há quatro meses, num interior desertificado agora ainda mais isolado.

A força com que rebenta a vegetação é a primeira estranheza quando se chega às aldeias e lugares daqueles três concelhos. Mas quem percebe da floresta e ali vive sabe que os eucaliptos se reproduzem automaticamente, agora é podar e deixar o ramo mais forte crescer e transformar-se em árvore, seis anos para atingir 25 metros. No pinhal florescem fetos, nada sai das raízes cujos troncos as chamas atingiram. Precisam de ser colocadas sementes para nascer um pinheiro, que leva 20 anos para ter cinco metros. As silvas são outro elemento verde naquela floresta de paus queimados.

A grande atividade local é a dos madeireiros. "É cortar por todo o lado e os pinheiros são praticamente dados", reclama Maria Graciete Henriques, 76 anos, de Vila Facaia. Pagaram-lhe 1250 euros por dez pinhais, madeira que se não fosse os incêndios valia o triplo, garante. A prima, Hermínia Rosário, 68 anos, tem as mesmas queixas. "Deram-me 500 euros e tive de mostrar quatro propriedades, algumas com carvalhos, só cortam o que tem valor. O argumento é que ardeu e está seco, que o pinheiro queimado ganha doença ( fica azul) se não for cortado." Pinheiros que "valiam 50 euros e agora nem 20". Estes relatos multiplicam-se entre os agricultores obrigados a vender barato. "Isso ou nada", dizem.»
DN, 22 de Outubro de 2017

Um novo paradigma para o interior de Portugal...


domingo, 15 de outubro de 2017

Agustina, 95 anos

«Não sei escrever assim, por conselho, e prévio repouso do espírito. Prefiro divagar de maneira assombrada, como os fantasmas ingleses, com a cabeça debaixo do braço. Isto é: sem cátedra e sem importância.»
Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã


Um senhor de matosinhos


andava eu no liceu: no salão nobre
dos paços do concelho em matosinhos,
um professor, o óscar lopes, vinha

mostrar à noite que a literatura
importa a toda a dignidade humana.
(...)
Vasco Graça Moura 


Óscar Lopes nasceu a 2 de Outubro de 1917, em Leça da Palmeira (Matosinhos).



Autumn Leaves




Mas que calor! Parece que estamos em pleno Verão...

O calor era muito na parte inicial de A Estrela Misteriosa...


Apareceu uma estrela a mais na Ursa Maior - os pneus estouram com o calor, os ratos fogem dos esgotos, o asfalto derrete...
Anuncia-se um fim do mundo que, afinal, não chega a acontecer.
«A estação polar do Cabo Morris (costa norte da Groenlândia) anuncia que um aerólito caiu no Oceano Árctico. Pescadores de focas viram uma bola de fogo cruzar o céu e desaparecer no horizonte. Logo depois a terra tremeu e o gelo deslocou-se...»

Uma expedição científica, composta dos mais eminentes sábios europeus, parte para uma expedição com o objectivo de descobrir o aerólito que caiu no Árctico. No aerólito foi detectada a presença de um novo metal - o calisténio! Da expedição faz parte o professor Pedro João dos Santos, “célebre físico da Universidade de Coimbra” - um dos portugueses das aventuras de Tintim.


A Estrela Misteriosa foi escrita em 1941.



Hoje temos tempestades, como o Ophelia, incêndios e "outras tempestades" levantadas pelos homens.
Mas o fim do mundo ainda não aconteceu... e amanhã anuncia-se o outono: temperaturas mais baixas e chuva.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Parede, falcões e raios

14 anos...





Onde é possível ter falcões a voar junto às janelas e ver raios a cair.
(ainda bem que há um vizinho que é um bom fotógrafo...)

Paulo Forks. Encontrei estas fotos, depois de, por acaso, ter visto a de baixo no Diário de Notícias, tirada quando da trovoada da semana passada.


Raios!!!


sábado, 19 de agosto de 2017

Cantinhos da Parede - Igreja

A 19 de Agosto de 1950, bênção e lançamento da "primeira pedra", pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Parede.

Postal da maqueta


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Serpa - Feira Histórica 2017



Serpa - vista aérea


Arquipélago místico


«Estas ilhas formam o arquipélago dos Açores, em tempos remotos denominado "arquipélago místico" - porque muitos o consideravam como restos da ilha Atlântida desaparecida. (...) E são belos os Açores. Entre as suas paisagens mágicas, as montanhas e os vales, as lagoas verdes e azuis, as encostas cheias de vegetação luxuriante, as escarpas em reverdece o musgo, tudo, tudo nos sugere com aspectos que parecem fabulosos. Por toda a parte, a diversidade das cores cria ambientes com um sabor indizível a exotismo (...)»

Frederic P. Marjay, Açores “Archipel Mystique” (1956)





Postais de data desconhecida.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Parabéns, Maddy Prior

... pelo 70.º aniversário.
O tempo passa rápido.


A primeira canção que ouvi interpretada pelos Steeleye Span
(andaria pelo ano de 1973...)


Vila Berta

Miradouro da Graça (Miradouro Sophia de Mello Breyner)

«(...) deixando esse miradouro [da Graça], quem tiver sorte nos acasos talvez atravesse o Largo (com a balbúrdia dos eléctricos e o pequeno comércio que lá formiga) e, a meio duma descida junto ao Quartel dos Bombeiros, se encontre de repente num recanto de beleza: Vila Berta.
Surge como uma rua fechada por um prédio com pinturas de azulejo sobre um túnel de passagem para a cidade envolvente. Dum lado e doutro casas bordadas de flores - e silêncio. Uma paz súbita, quase secreta. Uma intimidade que se sente já antiga.


No gosto e na construção Vila Berta não revela qualquer romantismo de burguesia provinciana. Também não usa de maneirismos e menos ainda de simetrias imediatas para resultar no bem composto. Pelo contrário, a fazer face às casas singelas dum dos lados da rua, projectam-se, do outro, arrojadas varandas de ferro, lançadas como pontões, e o admirável é que duma confrontação como esta resulta uma harmonia de encantar. Fidelidade à época e a um gosto pressentido, será isso? As colunas e os remates de remate lembram a escola de Eiffel e os desenhos de azulejo têm o colorido do despontar do século. E as flores?





Flores, na primavera e no verão a Vila Berta cobre-se delas. Rosas de grade e janela, rosas loucas, trepadeiras. Rosas e plantas de improviso em manchas de imaginação. Ver como eu lá vi, exposto num pontão deserto, um lavatório de bacia de porcelana a transbordar de chorões em chaga viva, é deparar com uma escultura de vanguarda num cenário fora do tempo. Cenário? Cenário, digo bem. Esta Vila, este pátio, tem qualquer coisa de palco aberto, basta olhar. Dum lado, varandas voltadas para a cena, em fundo a fachada dum prédio com os seus ornatos coloridos e o túnel de acesso à cidade. 



Será por essa entrada que, numa noite de verão, alguém verá aparecer o Cavaleiro da Rosa inundado de luar. Dirá que o viu quedar-se a meio do pátio, empunhando bem alto a flor que o anunciava e rodeado de silêncio.»
José Cardoso Pires, Lisboa Livro de Bordo
(1997)