"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (11) - crónica

24 de Maio
Na encruzilhada...



La France manifeste. Paysans, ouvriers, étudiants, le plus souvent en cortèges séparés, toutes les villes de province sont en marche. A Paris, la CGT organise deux défilés, rive gauche et rive droite, qui se veulent des démonstrations de responsabilité et se refusent à rejoindre les étudiants. Ils se dispersent dans le calme. A partir de 17h30, étudiants et jeunes travailleurs se regroupent dans la capitale. Différents rassemblements convergent vers la gare de Lyon . Ils sont vingt, trente mille. Ils sont «tous des juifs allemands». Les plus résolus cachent des manches de pioche sous leurs blousons aux poches lourdes de projectiles. L'esplanade déborde de monde. Les organisateurs tentent de négocier une sortie vers les Grands Boulevards, c'est non. Les CRS s'avancent pour dégager la voie publique. En queue de cortège, les transistors retransmettent à 20 heures le discours promis par le général de Gaulle: «J'ai décidé de soumettre aux suffrages de la nation un projet de loi par lequel je lui demande de donner à l'Etat, et d'abord à son chef, un mandat pour la rénovation ["]. Au cas où votre réponse serait non, il va de soi que je n'assumerais pas plus longtemps ma fonction.» Il est accueilli par des «On s'en fout!» et des «Adieu, de Gaulle!» Pierre Mendès France réagit: «Un plébiscite, cela ne se discute pas, cela se combat. Dès maintenant le peuple a déjà répondu non.» L'allocution du général de Gaulle déçoit tout le monde jusque dans son camp (sauf la télévision cubaine qui la juge «remarquable, tant par ce qu'il a dit que par ce qu'il a tu»).

Le discours achevé, des barricades s'élèvent autour de la Bastille. Premières charges, premières blessures. Des officiers de CRS arrêtent les ambulances et en arrachent les blessés pour les fouiller violemment sur la chaussée. Vers 22 heures, le quartier de la Bastille est repris, les manifestants se mettent en marche vers la Bourse. Malgré le mot d'ordre de l'Unef, le bâtiment, qui n'est pas protégé, est pris d'assaut à coups de madrier. C'est la ruée, la corbeille est mise à sac. Pendant un quart d'heure, le palais Brongniart est en flammes. 22h45, débandade.

A 23h30, regroupement général au Quartier latin. On érige des barricades, l'organisation des secours prend le pas sur le débat idéologique, l'atmosphère est tendue, fébrile, résolue. A 0h30, le commissariat du Ve, au Panthéon, est lapidé, un car de police incendié.

Les CRS déclenchent une attaque frontale boulevard Saint-Michel. Tirs tendus de grenades lacrymogènes, les six barricades sautent, aussitôt déblayées par le bulldozer qui suit les escadrons. Mendès France se rend sur place. Le cardinal Marty vient au milieu de la nuit réconforter les blessés. La résistance s'organise en petits barrages jusque sur la rive droite. Le poste de police des Archives, rue Beaubourg, est saccagé, et son mobilier aussitôt élevé en barricades. La police s'énerve sur les isolés; ni le brassard de presse ni celui de la Croix-Rouge ne permettent d'éviter les coups. 795 interpellations, dont 80 femmes, 45 arrestations maintenues; 456 personnes reçoivent des soins dans les hôpitaux, 178 restent hospitalisées, dont 2 policiers. Philippe Mathérion, 26 ans, qui manifestait avec les étudiants, a été admis mort à l'hôpital Cochin au cours de la nuit. Il a été poignardé, probablement au cours d'une rixe entre manifestants. A Lyon, le commissaire Lacroix a été tué en tentant d'arrêter un camion lancé contre les forces de l'ordre.

Cet après-midi, Paris a la gueule de bois. Depuis 15 heures, rue de Grenelle, au ministère des Affaires sociales, tous les partenaires sociaux sont réunis pour négocier un accord qui mettrait fin à la crise. Les Parisiens sont partis en week-end, on trouve de l'essence au marché noir pour 3 francs le litre. Les autres peuvent toujours s'abonner au Monde des philatélistes, pour 12 francs par an (spécimen sur demande).



quarta-feira, 23 de maio de 2018

O (nosso) Labirinto da Saudade

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luís de Camões


Os 95 anos de Eduardo Lourenço.
40 anos de O Labirinto da Saudade, psicanálise mítica do destino português, o problema da imagem de Portugal ou da imagem que os portugueses têm de Portugal - como nos vemos.

«O nosso caso é outro: tivemos sempre uma vértebra supranumerária, vivemos sempre acima das nossas posses, mas sem problemas de identidade nacional propriamente ditos. A nossa questão é a da nossa imagem enquanto produto e reflexo da nossa existência e projecto históricos ao longo dos séculos e em particular na época moderna em que essa existência foi submetida a duras e temíveis privações.»

A RTP 1 passa um filme sobre Eduardo Lourenço, com o próprio no seu papel de filósofo, e centrado n' O Labirinto da Saudade.
É curta a atenção dada pelos grandes meios de comunicação social (mesmo os públicos - os do serviço público) a pensadores e ensaístas, num "horário nobre".
É bom ouvir quem privilegia o pensamento e o conhecimento como fim, não apenas como um meio.

É bom que a RTP o faça, mesmo sabendo nós que esta homenagem (porque o é) será justificada pela idade do homenageado.
E chega uma altura em que...


terça-feira, 22 de maio de 2018

Expo'98 - Há 20 anos

Há 20 anos, uma Lisboa - e um país - diferente.
Para melhor (em relação ao que havia antes)!

E uma composição musical na memória...




E imagens...




Foi uma festa!
De Em todos os sentidos...


Maio de 68 - 50 anos (10) - e Júlio Pomar

Em Paris, onde tinha fixado residência no ano de 1963, Júlio Pomar pintou a série temática sobre os acontecimentos de Maio de 68, centrando as suas representações nas CRS.






Júlio Pomar

«O meu olhar é nítido como um girassol.»
Alberto Caeiro

Autoportrait (1978)

n. 10.01.1926


domingo, 20 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (9)

«20 de Maio
A França inesperadamente em plena sedição. Bandeiras vermelhas nas Universidades e nas Fábricas Ocupadas, greves, greves, greves...
Que vai acontecer? (Nada? A 2.ª Revolução Francesa?)
- Ah! Se houvesse lá um Lenine!... - suspirou ontem o Abelaira.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV


domingo, 13 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (8)


Li a história algures...

No dia 13 de Maio, Caroline de Benderna, manequim, 23 anos, participa na sua primeira manifestação.
Salta para as cavalitas de um amigo, o pintor Jacques Lebel. Este estende-lhe a bandeira da Frente Nacional para a Libertação do Vietname.
"Percebi que estava rodeada de fotógrafos. O instinto de manequim despertou e comecei a entrar no jogo."
A foto, da autoria de Jean-Pierre Rey, acabaria por ser publicada e correr o mundo.
A modelo era a nova Marianne.
Consequência: foi deserdada pelo pai, o conde de Bendern, e não recebeu sete milhões de libras.

Terá sido mesmo assim?
Pelo menos, ficou o ícone.



Maio de 68 - 50 anos (7)

Maio transita das universidades para as ruas e das ruas para as fábricas.

A 13 de maio, 1 milhão de pessoas manifesta-se nas ruas de Paris, durante a greve geral. Esta afecta todo o país.
Há manifestações por toda a França.
A Sorbonne é reaberta e ocupada pelos estudantes.
No Festival de cinema de Cannes, as projecções são suspensas.

O historiador Tony Judt considerou que estes protestos laborais foram os "maiores da história moderna de França", afirmando que os trabalhadores estavam "genuinamente frustrados com as suas condições de vida".

Nos dias que se seguem, os operários da Renault decretam uma greve e ocupam as instalações da fábrica em Cléon (dia 15), o movimento grevista alastra a mais de 50 empresas (16), a emissão da televisão (ORTF) passa a ser controlada pelos jornalistas e técnicos (19), o porto de Marselha é ocupado pelos trabalhadores e as centrais eléctricas e de telefones são bloqueadas (20), a greve envolve cerca de 7 milhões de trabalhadores (há quem fale em 9 milhões), os teatros de Paris estão ocupados (dia 21).




No reino da galinhagem

Obrigado ao anónimo que levantou a hipótese de plágio por parte da concorrente israelita...


A aparência da cantora israelita tinha-me feito lembrar esta capa... mas em bom!


Festival da Eurovisão (ou o triunfo das galinhas!)

Disseram-me que, este ano, quem ganhou o Festival da Eurovisão foi uma galinha anafada de Israel, disfarçada de japonesa.
Confuso!
Não havia uma vaquinha, ao menos?


sexta-feira, 11 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (6)

A 11 de Maio, as principais confederações sindicais convocam uma greve geral para o dia 13 de Maio.
O primeiro-ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão. No regresso anuncia a reabertura da Sorbonne no dia 13.




quinta-feira, 10 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (5)

A 10 de Maio, ocorrem manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e fazem barricadas.
Seguem-se os confrontos que se prolongam pela madrugada. Os estudantes tiram as pedras da calçada para atacar as forças policiais.


De 10 para 11 de Maio, viveu-se uma batalha campal nas ruas de Paris.

Seriam os mais violentos desde o início desta crise.



quarta-feira, 9 de maio de 2018

Europa foi enganada


«Europa era filha de Agenor, rei de Tiro. Era tão bela que não passou despercebida à lubricidade de Zeus. Um dia, quando a jovem princesa colhia flores na praia, aproximou-se dela um touro de aspecto nobre e majestoso. A princípio, Europa atemorizou-se, mas pouco a pouco foi-se aproximando do animal, que docilmente se prestou às carícias da jovem. Sentada sobre o seu dorso deixou que ele a conduzisse, suave e vagarosamente, sobre a crista das ondas. Quando se apercebeu, viu-se transportada a galope e a desaparecer na bruma do mar. Escusado será dizer que este touro era Zeus.

Chegados a Creta, Zeus consumou o seu desejo por Europa, dando-lhe três filhos: Minos (futuro rei de Creta), Radamanto e Sarpédon. Mais tarde, Zeus concedeu-a em casamento ao rei da ilha, que adoptou os filhos divinos.

Este episódio mitológico agradou a poetas da Grécia Antiga que passaram a chamar Europa aos territórios para lá da Grécia.»
Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas

Desengane-se quem, pelo título, pensava que eu ia falar da Europa política, de Trump, do Irão... 

Rapto de Europa, mosaico romano do século III

Fresco de Pompeia
Rapto de Europa, Botero
Enlevo de Miss Europa, Nikias Skapinakis
9 de Maio - Dia da Europa
E as minhas vaquinhas estão seduzidas...


domingo, 6 de maio de 2018

Il n'y a plus rien!

Televisão entre o modo Festival da Eurovisão e o Porto campeão...

Queima das Fitas em modo cerveja...

Fico em modo sorriso das vacas!...


Em modo 50 anos de Maio 68...
(a diferença entre quem pensava mudar o mundo e quem pensa em se embebedar...)

Ao menos que reguem o jardim!...


Maio de 68 - 50 anos (4)

6 de Maio: realizam-se novas manifestações no Quartier Latin, o "bairro dos intelectuais", e são erguidas barricadas.
Há violentos confrontos entre a polícia e os manifestantes, que serão cada vez mais, mas os números variam nos milhares...
Os polícias lançam bombas de gás lacrimogéneo, os manifestantes lançam pedras.
Há centenas de detenções e cerca de 500 feridos.




O radicalismo de esquerda toma conta das universidades e vai tomando conta de Paris.




sábado, 5 de maio de 2018

Karl Marx - 200 anos



Cena do filme Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni


Ser (pura e simplesmente)


«Os tempos em que vivemos poderiam ser a melhor das épocas para se estar vivo, porque estamos rodeados de por descobertas científicas espectaculares e por um brilho técnico que tornam a vida cada vez mais confortável e conveniente: porque a quantidade de conhecimentos disponível e a facilidade de acesso a esses conhecimentos nunca foram tão elevadas, acontecendo o mesmo em relação à interligação humana a uma escala planetária, como se prova pelas viagens, pela comunicação electrónica e pelos acordos internacionais sobre todos os tipos de cooperação científica, artística e comercial; porque a capacidade de diagnóstico, gestão e até cura de doenças continua a aumentar e a longevidade continua a prolongar-se de tal forma que se espera que os seres humanos nascidos após o ano de 2000 possam viver, e bem, segundo se espera, até uma média de 100 anos. Em breve seremos conduzidos por veículos robotizados que nos poupam esforços e vidas, pois, a certa altura, deveremos ter menos acidentes fatais. 

No entanto, para considerar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estivéssemos muito distraídos, já para não dizer indiferentes ao drama dos restantes seres humanos que vivem na miséria. Embora a literacia científica e técnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou que podemos vir a ser. Ao que parece, não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser. Parte das sociedades que celebram a ciência e a tecnologia modernas, e que mais lucram com elas, parece estar numa situação de bancarrota “espiritual”, tanto no sentido secular como religioso do termo. A julgar pela aceitação despreocupada das crises financeiras problemáticas – a bolha da internet de 2000, os abusos hipotecários de 2007 e o colapso bancário de 2008 – parecem igualmente estar numa situação de bancarrota moral. Curiosamente, ou talvez não tanto, o nível de felicidade nas sociedades que beneficiaram com os espantosos progressos do nosso tempo mantém-se estável ou em declínio, caso possamos confiar nas respectivas avaliações.»

António Damásio, A estranha ordem das coisas

Fotografia de Robert Doisneau


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Desembaraço?


Abrir-se-á uma "caixa de Pandora", como alguns preconizam?
Estará a direcção do PS a festejar? 
Hum... Embaraçados estavam mais sossegadinhos...
Zangam-se as comadres...

Jogada de quem?

Estará?

Não perca os próximos episódios!...

Segundo o mito, na caixa do Pandora ficou encerrada a esperança...


4 de Maio

1981
Setúbal
Dia da minha 2.ª inspecção
Um dos episódios da minha "vida militar".


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (3)


A 3 de maio, no pátio da Sorbonne, uma assembleia de estudantes exigiu o acesso aos anfiteatros. 

O reitor chamou a polícia, que entrou nas instalações universitárias e deteve vários alunos. A Sorbonne foi encerrada.
Os distúrbios alastraram ao centro da cidade: muitos jovens foram detidos em manifestações no Quartier Latin
Seguiram-se confrontos com as autoridades.

«Foi uma espantosa expressão de solidariedade. Entre 6 000 e 10 000 estudantes foram para o Quartier Latin para cercarem e reabrirem a Sorbonne (...) Começámos a virar carros e a levantar barricadas à volta dos estudantes (...) Demos connosco atrás das barricadas a dizer "daqui ninguém nos tira!"» (Romain Goupil)




quarta-feira, 2 de maio de 2018

Estar com a juventude

«Estar com a juventude, sem o proclamar demagogicamente de nenhuma maneira. Estar com ela agora e sempre, na sua encarnação presente e futura, tão discretamente que nunca sinta ao lado nem uma presunção protectora, nem uma ambição mentora. Acompanhá-la nas horas boas e más, só através da sinceridade duma atitude ou da pureza dum poema que lhe acudam à lembrança.»
Miguel Torga, Diário X (Coimbra, 7 de Maio de 1968)


Maio de 68 - 50 anos (2)




Da capa do i de hoje

A 2 de Maio de 1968 houve novos incidentes entre os estudantes e a polícia em Nanterre, sendo encerrada a Faculdade de Letras.
Vários estudantes acusados de liderar o movimento foram ameaçados de expulsão.
As medidas provocaram a reacção dos alunos da Sorbonne.

Sorbonne (identificada como sendo da sua ocupação)



Léo Ferré
L'été 68

L'été comme un enfant s'est installé
Sur mon dos
Et c'est très lourd à porter
Un enfant tout un été
Sans cigales
Avec des hiboux ensoleillés
Comme les enfants du mois de mai
Qui reviendront cet automne
Après l'été de mil sept cent quatre-vingt-neuf

Ça ira ça ira ça ira


terça-feira, 1 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (1)

DN de hoje
Ao caminhar para o final da década de 1960, a população universitária aumentara significativamente em França.
Em finais de 67, os estudantes reclamavam reformas nos programas, nos métodos de ensino e nos exames, o direito a eleger representantes, o maior acesso ao ensino superior por estudantes provenientes das classes trabalhadoras e o fim da segregação sexual nos alojamentos universitários.
«Havia também um "considerável movimento nocturno de um lado para o outro" entre os dormitórios masculino e femininos, apesar "das rigorosas" proibições oficiais.»

Para alojar estudantes, a Sorbonne tinha construído um novo pólo em Nanterrre, na região metropolitana de Paris.
Em Março já os estudantes tinham ocupado um edifício administrativo e criado um movimento - 22 de Março - tendo à frente Daniel Cohn-Bendit, que viria a ser um dos líderes da revolta.
Foi aí que começaram os distúrbios de Maio de 1968, que terão sido detonados por protestos contra a guerra do Vietname. Também existia contestação à situação social e política de França e ao governo do general Charles de Gaulle.




José Mário Branco e duas obras clássicas

O dia fez-me procurar disco antigo.
Ouço e recordo...

O dia 25 de Abril "inconscientemente" vivido, com a audição de um conjunto de canções - muitas até então proibidas - tendo muitas constituído, para mim, uma surpresa.
A aquisição dos discos (em vinil, claro!) que procurei avidamente, logo que pude, e ouvi vezes sem conta.
A partilha com os amigos dessas (e de outras) músicas, num clima bem diferente daquele em que se tinha vivido. Isso era mais do que perceptível, mesmo para quem era politicamente inconsciente.
Tinha 15 anos...


Ouço este disco de José Mário Branco... procuro o seu "irmão-gémeo" - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - e admiro-me da qualidade - músicas, letras, arranjos musicais... Muito à frente das habituais baladas de protesto, de consumo mais imediato.
Quase tantos anos como o Maio de 68 em Paris, cidade em que José Mário Branco vivia, e esta música continua a dizer(-me) coisas, para além do que possam ser as ligações afectivas valorizadas pela memória. 
É a isto que se chama uma obra clássica - e dura, dura, dura...




1.º de Maio


«Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.
- Mais bonito do que a Rainha Santa... - dizia uma popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.»
Miguel Torga, Diário XII (Coimbra, 1 de Maio de 1974)


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Com que então libertos, hein?...

Com que então libertos, hein? Falemos de política,
discutamos de política, escrevamos de política,
vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,
essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.
Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos
tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.
E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.
(...)
Jorge de Sena



domingo, 22 de abril de 2018

Eléctrico 24



Será assim (talvez).

P.S. - Encontrei uma velha foto de um eléctrico para Campolide, a passar na Rua das Amoreiras.



Lisboa W-E, Cidade Triste e Alegre

Farto de estar no aquário, fui procurar Lisboa... exposta em museu.
Encontrei o rio na relva... 

Lisboa W-E - Lisboa vista do rio Tejo, em fotografias de José Manuel Costa Alves.


Um percurso ao longo da Zona Ribeirinha, com os pés no rio, olhando para a cidade. 


E encontrei as pessoas da cidade na época em que nasci...

Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitectura de um Livro


Obra da autoria dos arquitectos Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996), editada em 1959 e resultado de "um trabalho de três anos em que ambos percorreram as ruas de Lisboa, retratando-a e aos seus habitantes, assim revelando uma cidade escondida, simultaneamente triste e alegre."


Obra apresentada pelos seus autores:

«(...) o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo – revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida de uma cidade. Talvez por isso fosse mais adequado chamar-lhe "poema gráfico" - até porque o arranjo das imagens e a própria composição do livro têm, no seu grafismo, o fluir, a alternância de ritmos, as ressonâncias de uma obra poética.»



Voltarei à Cidade Triste e Alegre
porque

Alegre ou triste,
numa cidade como esta
é sempre para os olhos uma festa
Armindo Rodrigues

Museu de Lisboa, Palácio Pimenta (ao Campo Grande)





sábado, 21 de abril de 2018

Sandy Denny

Morreu há 40 anos, com 31 de idade.
A solo, integrada nos Fairport Convention e em outros grupos (Fotheringay, Strawbs) ou com outros músicos, deixou-nos um legado musical que faz com que muitos críticos a considerem a rainha da folk-rock britânica.



Este vídeo, para além das interpretações na BBC, deixa-nos imagens dos seus diários, uma foto-galeria e a sua discografia.

Malandros dos ratos!...



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Georges Dussaud - fotógrafo do Barroso

Das terras do Barroso são sublimes as fotografias de Georges Dussaud.



«Foi o acaso que trouxe Georges Dussaud a Portugal em 1980; foi também por acaso que a viagem de regresso do Alentejo a França o fez cruzar as estradas de Trás-os-Montes. Mas nenhum acaso explicará a sua fixação num mundo ao qual regressa uma e outra vez, desde então, (...) constituindo um impressionante corpo de trabalho. Não como fotógrafo de passagem, que regista o estranho, o diferente talvez exótico, mas como um viajante que pára e vive os lugares, o quotidiano das gentes, que o abrigam, que o reconhecem como amigo, porque sabem que o seu olhar é amigo: não há nunca intrusão, mas convivência, compreensão das emoções, na justa medida.»
(M. Tereza Siza, 2007)




«O conhecimento que Georges Dussaud tem de Trás-os-Montes e da sociedade rural transmontana - que ele salva em imagens -, permite-nos partilhar os gestos mais humildes e sublimes dos quotidianos destas gentes. Não se esconde o sublime, muitas vezes, no mais humilde quotidiano?»
(José Rodrigues Monteiro)




No "país onde o preto é cor", Georges Dussaud encontra, 
"entre o preto e o branco, uma infinidade de cambiantes 
em que a luz se torna poesia".

Procurem-no!
«Ele é irmão dos grandes poetas.»

(pode ser no facebook, que alguma coisa de bom há no fb)