Este blog mudou de nome.
Mas persisto na pretensão de que este espaço possa continuar a ser um despretensioso ponto de Permanente Reencontro de amigos, que vá servindo para dar à tramela.

"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Guernica - 80 anos

26 de Abril de 1937 -  Aviões nazis, às ordens do general Franco, atacaram a cidade basca de Guernica, no seu dia de feira. Numa população de 7 mil pessoas, 1654 mortos e 889 feridos.
O quadro foi exposto na Exposição Internacional de Paris de 1937.

Guernica
Picasso pintando Guernica, no seu atelier

Pormenor de Guernica

Pormenor de Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, de Goya
O mesmo grito contra a desumanidade


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Lluis Llach distinguido pela SPA

Num dia dedicado à cultura catalã, Lluís Llach, compositor, poeta e músico, recebeu hoje a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

Lluís Llach, que brevemente fará 69 anos, já pôs fim à sua carreira, 40 anos depois de a ter iniciado em finais da década de 1960, no meio universitário catalão.
A Espanha vivia sob a ditadura de Franco e Lluís Llach, contestatário ao regime, acabaria por se exilar em Paris (1970 ou 71). 

Em Maio de 1975, actuou num Canto Livre, no Teatro S. Luís (Lisboa), primeira vinda a Portugal.
Foi nomeado Artista para a Paz, pela UNESCO, em 1999.

Recordo a primeira canção que ouvi cantada por Lluís Llach, I si canto trist..., logo após o 25 de Abril de 1974, acontecimento a que dedicaria a canção Abril 74.

Impressionante pelo ambiente de comemoração da liberdade pós-franquista a sua actuação, em Janeiro de 1976, no Palácio dos Desportos de Barcelona. Uma exaltação festiva o disco Barcelona Gener de 1976, que resultou da gravação do conjunto de três recitais, no seu regresso a Espanha (à sua Catalunha), dois meses depois da morte do general Franco.
Impossível não se sentir que a liberdade estava a passar por ali...


Até o disco treme!


Este lado B do LP de vinil inclui a canção Abril 74.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Jesus no Monte das Oliveiras

«Jesus saiu para o Monte das Oliveiras, como era seu costume. Os discípulos foram com ele. Quando lá chegou, disse-lhes: "Peçam a Deus para não caírem em tentação." Afastou-se deles a uma curta distância e, pondo-se de joelhos, orava assim: "Pai, se for do teu agrado, livra-me deste cálice de amargura. No entanto, não se faça a minha vontade, mas sim a tua." Nisto apareceu-lhe um anjo do Céu que veio dar-lhe forças. Jesus estava muito angustiado e orava ainda com mais fervor, enquanto o suor lhe caía no chão, como grandes gotas de sangue.
Depois da oração, levantou-se e foi ter com os discípulos, mas encontrou-os abatidos pela tristeza. "Estão a dormir? Levantem-se e orem, para não caírem em tentação", disse-lhes.
Ainda Jesus estava a falar quando chegou uma multidão. À frente vinha Judas (...)»
(Lucas, 22:39-47)

El Greco, A oração no Monte das Oliveiras
Na pintura de El Greco, é o anjo que parece oferecer o "cálice de amargura" e Jesus, apesar de "protegido" pelo penedo, será descoberto e preso pelos guardas que se aproximam, conduzidos por Judas. Num plano inferior ao anjo, os três apóstolos que o acompanharam dormem numa concavidade.

Esta é uma das várias versões de El Greco para a mesma cena bíblica. As suas pinturas atingem uma capacidade criativa estranha aos cânones da época, o que levou a que alguns partidários da contra-reforma levantassem a questão de que as cenas de El Greco não estimulariam o desejo de rezar.


A última ceia

«Quando chegou a altura, Jesus sentou-se à mesa com os apóstolos e disse-lhes: "Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de morrer."»
(Lucas, 22:14-15)

El Greco, A última ceia


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira

Faleceu hoje, no Porto. Tinha 91 anos e foi uma importante especialista portuguesa em Estudos Clássicos, reconhecida pela sua grande competência.

Depois do curso em Coimbra e da investigação feita em Oxford, no início da década de 1950, o que era algo quase impensável na sociedade portuguesa da época, foi a primeira mulher a doutorar-se pela Universidade de Coimbra (1956), onde se tornou, também, a primeira catedrática (1964) e onde deu aulas até 1995. Foi autora de uma vasta obra de divulgação da cultura clássica.

Em 2001, numa entrevista ao jornal Público, comparando o homem actual e o clássico, afirmou:
“Em relação aos antigos, a diferença espiritual, intelectual, não é tão grande como parece: o homem é sempre o mesmo. Infelizmente, não perde os defeitos que tinha, por vezes não conserva as virtudes.”

Maria Helena Rocha Pereira, em 2010, quando recebeu o
Prémio Vida Literária,
atribuído pela Associação Portuguesa de escritores


domingo, 12 de março de 2017

Raul Brandão, Húmus

«- A alma - diz ele -, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação. Há-os cuja alma é duma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes de a matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. É assim que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus. Nos vegetais, nas árvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingénua e humilde, que se exterioriza em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, vem à tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos minerais, na pedra concentrada e recalcada, que dor inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flor.»
Raul Brandão, Húmus

Celebram-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e os 100 anos da edição de Húmus.



«Um livro como Húmus pode escrever-se num surto de arrebatada actividade criadora - e nem de outra maneira sabia e podia Raul Brandão escrever. O que todavia não é possível é conceber que uma obra com a riqueza e a complexidade desta possa surgir senão depois de uma larga e reiterada meditação - neste caso a sempre repetida e dramática equacionação das incógnitas que de há muito estavam na base da problemática existencial do escritor. Deste livro se poderia dizer que contém e amplia todos os outros no sentido de que nele se concentram e desenvolvem, a nível literário até aí ainda não atingido, todas as inquietações que fizeram deste indisciplinado pesquisador de mistérios um originalíssimo espírito metafísico.
Quanto a ser esta a sua melhor obra não há qualquer dúvida. Assim unanimemente os críticos o têm entendido e assim a considerava o próprio Raul Brandão, conforme testemunho de Câmara Reis.»
Guilherme de Castilho, Vida e obra de Raul Brandão


Raul Brandão - Só a luz!

«Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho?... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz para mim é a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a num êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta.»
Raul Brandão, Memórias III

De um escritor frequentemente sombrio...
mas que consegue pintar com palavras e tintas vivas (porque nunca foi de meias-tintas).

Caricatura da autoria de Miguel Salazar


Raul Brandão - 150 anos

«Tenho diante de mim a sua figura enorme, vejo-o caminhar, umas pernas imensas sustentando um corpo mais pequeno, andar um pouco desarticulado, apoiado à sua bengala (...) Não esqueço mais o seu olhar infinitamente azul, a sua cabeça aristocrática, a sua voz a falar-me de coisas extraordinárias.»
Carlos Carneiro (escrevendo sobre Raul Brandão)

Raul Brandão na caricatura de Stuart Carvalhais (1927)


domingo, 5 de março de 2017

Eu hoje tremi!



Mas depois compreendi: "Ah!!! É o Bruno de Carvalho!"
Há gente que não se enxerga!!!


P.S. - E como é que as televisões alteram a sua programação, para estarem horas a analisar e a comentar eleições para a presidência de um clube de futebol, promovendo gente sem educação?


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Almeida Garrett


Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia...
Folhas caídas



Almeida Garrett nasceu nesta casa (no Porto), a 4 de Fevereiro de 1799.


Amadeo - Um fenómeno único na pintura portuguesa


«Amadeo foi um inventor: entendeu o cubismo e criou os primeiros quadros abstractos que dele derivaram, adiantou-se ao "purismo", e duma estética futurista passou ao encontro da aventura poética, certo com o movimento da pintura europeia que não podia conhecer no seu isolamento português de então.
A sua obra, truncada pela morte, e toda feita numa idade adolescente de pintor (...) é um encadeamento de períodos de experiências e de invenção, e pode ser verificada, a par e passo, como sendo ora convergente, ora paralela, ora precursora da pintura europeia sua contemporânea.
É um fenómeno único na pintura portuguesa (...)»
José-Augusto França, Amadeo


No Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), até ao próximo dia 26, uma exposição que evoca a que se realizou em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa, em Dezembro de 1916. 
Almada Negreiros apresentou essa exposição como "mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia".




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

John Wetton

John Wetton (1949-2017)
Baixista e vocalista dos King Crimson, na trilogia Larks' Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Red (1973 - 1974), onde o conheci (de ouvido), numa época de descobertas.
Tocou ainda noutros grupos, como os Asia.

  


sábado, 7 de janeiro de 2017

O melhor exemplo de coragem e inteligência

Li n' A Bola de hoje uma entrevista de Júlio Pomar.
A linhas tantas, diz o entrevistador:
«- A sua juventude foi marcada por convicções políticas e por activismo, particularmente ao lado de Mário Soares, com quem partilhou cela na prisão. Ele agora está hospitalizado, imagino que lhe custe vê-lo assim.
- Bastante. Ter vivido com ele num local fechado, presos, mostrou-me que estar num espaço como aquele obriga a que as pessoas se revelem. O Mário foi o melhor exemplo de coragem e inteligência da nossa geração.»

Retrato oficial do Presidente Mário Soares, da autoria de Júlio Pomar

Mário Soares morreu com Maria Barroso. Sobreviveu-lhe o corpo, até hoje.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nos idos de 75

Alguém tinha de lavar a loiça...

... depois do jantar dos meus anos
(mais novo do que aquilo que eu sou hoje)


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Entrevista (e notícia) insólita(s)

Algo de errado se passa quando o comediante e o entrevistado são a mesma pessoa e não colaboram (ou não colabora) entre si...
Dupla personalidade, talvez...



Burocracias que não compreendo...

Na compra do passe mensal de uma das empresas públicas de transporte indicadas, se pretender uma factura com o número de contribuinte... preencho o impresso:

Se pretender em papel... ainda tenho de a ir levantar em locais que poderão não ser o posto de venda, no horário de expediente, claro, e sujeito à disponibilidade de senhas!!!
Na net sempre é mais fácil!
Terá de ser tão complicada a passagem de uma factura com número de contribuinte?
As empresas podem proceder desta forma?


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Para um começo feliz de ano...


Uma ida à Galileu para comprar uns livros!

e outros...
como um sobre El Greco, finalmente!
Em dia de vento e chuva...



Pena foi que a chuva, à tarde, me entrasse pela casa dentro e obrigasse a mudanças...
Parece que a felicidade nunca é completa!... 


domingo, 1 de janeiro de 2017

Cozido de grão

A receita do Manel bateu certa!
O cozido estava mesmo bom!

Não se vê a hortelã!...

«Desde os tempos dos romanos passando pela ocupação árabe, o grão foi considerado, juntamente com a fava, um dos legumes mais consumidos. O cozido de grão é uma consequência desse hábito porque junta ao modesto mas saboroso legume, a riqueza das carnes que são entendidas também como as mais saborosas. Existem receitas de cozido de grão fixadas há mais de mil anos, embora as carnes que o compunham, na época, fossem carne de carneiro e não de porco.»
Alfredo Saramago, Joaquim Madeira, Clara Roque Vale e Manuel Fialho
Gastronomia e Vinhos do Alentejo

P.S. - Foi com carne de porco; há quem não goste de borrego...


Façamos da Paz a nossa prioridade

No Dia Mundial da Paz...


Excerto da primeira mensagem de António Guterres como Secretário-Geral da ONU, com o apelo a que Façamos da Paz a nossa prioridade .

Devemos sempre começar (o que quer que seja) com boas intenções, com bons princípios e com optimismo.
A realidade é que nem sempre está pelos ajustes! 


Outro ano


«Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! - responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.


Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar.  Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. (...)


Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices...»
Miguel Torga, Diário II (Coimbra, 1 de Janeiro de 1943)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Retábulo da Natividade

Raro por apresentar apenas uma cena - a adoração dos pastores ao Menino Jesus -, o retábulo, de origem flamenga, do século XVI, tem a marca de uma das melhores oficinas de Antuérpia.

Retábulo da Natividade - Museu Machado de Castro (Coimbra)

«Trata-se do melhor exemplar deste género existente em Portugal, já de uma fase adiantada estilisticamente, onde são visíveis os ecos do Renascimento nascente. Há gosto pelo pormenor, pelo pitoresco, e as figuras humanas estão cabalmente individualizadas. A policromia, bem conservada, é igualmente de categoria, abundando o ouro que tudo cobre.»
Pedro Dias


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Cristianismo e a História

«As formas como vivemos o Natal não são indiferentes à História, até porque o cristianismo é uma religião vertiginosamente histórica. Há outras tradições religiosas para quem a História é mais ou menos indiferente, porque apostam tudo na superação ou numa espécie de intervalo em relação à História. O cristianismo pega na História de frente. E, por isso, tudo o que é o fluxo histórico tem uma tradução na vivência do cristianismo. O próprio Natal, em si mesmo, é este cruzamento do eterno com a História e é sempre através daquilo que a História pode ser em cada momento que nós conseguimos olhar para o mistério da fé.»
José Tolentino Mendonça (em entrevista ao Público, hoje)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Centenário do nascimento de Manoel de Barros


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros


Nomeio o mundo

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação, um verso.
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio nasceu a 19 de Dezembro de 1901.



Sobre Vitorino Nemésio afirmou Manuel Nemésio, seu filho: «O meu pai era um amante da vida. Era uma espécie de Internet antes de tempo, com tudo o que tinha lá dentro, embora nunca deixasse de usar o seu lápis e a sua agenda.»


sábado, 17 de dezembro de 2016

O que os rankings não mostram

Texto de João Costa, Secretário de Estado da Educação, no jornal Sol, a propósito dos rankings das escolas que a comunicação social adora (como adora qualquer classificação, porque uma lista ordenada simplifica o que é complexo e a comunicação social parece que tem tendência a só compreender o que é básico!).
E como parece que (finalmente?) temos um Secretário de Estado que percebe de educação...

Os rankings que são disponibilizados pelos media habitualmente hierarquizam as escolas de acordo com as médias dos exames nacionais. Embora, nos últimos anos, se tenham vindo a integrar variáveis de contexto, esta seriação de escolas compara, por vezes, o que não é comparável e oferece um retrato bastante parcelar do trabalho desenvolvido.

Não tenho dúvidas de que é interessante para a comunidade saber qual o alinhamento da sua escola com um perfil nacional ou regional de desempenho. Tenho a certeza de que o interesse de uma lista ordenada de escolas é nulo. Mal comparado, é interessante para uns pais conhecerem o percentil de desenvolvimento do seu filho, mas é irrelevante saber qual a sua posição relativa em relação aos bebés todos do país.

Conhecer a qualidade de uma escola implica um olhar muito mais abrangente, pelo que são precisos mais indicadores e é necessário um olhar sistémico. Para isso, o Ministério da Educação tem vindo a disponibilizar mais indicadores, de que destaco: os Percursos Diretos de Sucesso, que medem o quanto a escola contribuiu para a progressão dos alunos; o indicador de desigualdades, que mede a dispersão de notas numa mesma escola; os indicadores por disciplina, que permitem uma análise comparada entre as disciplinas da mesma escola, estabilizando assim variáveis sociodemográficas, que a comparação entre escolas não permite controlar.

Mas há muito mais no trabalho das escolas que não tem sido valorizado e que os rankings não mostram. Trabalho que é essencial para o cumprimento da missão da educação:

1. Inclusão: há escolas que se destacam pelo trabalho absolutamente notável que fazem com alunos com deficiência, valorizando-os e incluindo-os.

2. Mobilidade social: a pobreza ainda é o principal preditor de insucesso, mas há escolas que se destacam por garantir que a correlação entre nível socioeconómico das famílias e resultados escolares não é tão forte.

3. Educação humanista: se os melhores resultados não estiverem associados ao desenvolvimento de um perfil que leva os alunos a colocar os seus conhecimentos ao serviço da construção de uma melhor sociedade, a escola não está a formar bem. Há escolas que desenvolvem um trabalho admirável na promoção de projetos de cidadania, serviço social, trabalho cooperativo. Um 17 a biologia de quem não considera os outros vale menos do que um 15 de um aluno respeitador e solidário.

4. Formação artística e desporto: há escolas que deixam florescer talentos artísticos, que promovem um trabalho notável na promoção da saúde e do desporto. Estas são áreas fundamentais na estruturação dos indivíduos e para as quais não temos ainda indicadores.

A reflexão em curso sobre a avaliação externa das escolas no Ministério da Educação pondera como alargar o leque de dimensões a valorizar. Uma educação integral envolve atingir metas em muitas dimensões. Nem todas se expressam numa nota. Mas sobre todas é preciso obter dados e valorizar o que de melhor se faz. Por isso, precisamos de vários olhares sobre a escola, para que, aos poucos, seja possível tornar visível o que leituras apressadas ocultaram.
Sol, hoje - aqui


domingo, 11 de dezembro de 2016

Um instante (de um poeta)


Ferreira Gullar 
(10 de setembro de 1930 - 4 de dezembro de 2016)


Amadeo na Rota do Românico

Ou como duas rotas confluem...


A Manhufe, à Casa do Ribeiro, logo que possa!!!


Elton John ao vivo

O hábito vício que se tornou captar/divulgar o momento, filmar, gravar espectáculos... já me levou várias vezes, esta noite, para o concerto de Elton John (por causa do hábito vício que se tornou estar nas redes).

O som é fraquinho, as imagens péssimas, mas, com meia dúzia de amigos a captarem o momento, já me apercebi que as canções são as que eu ouvia (e, às vezes, ainda ouço) há mais de 40 anos atrás.
Mas faz muito bem em cantar essas, porque são as que valem a pena!...



Todos se PISAm

E todos se empurram para ficar à frente no retrato...

«Na edição do PISA 2015, os alunos portugueses melhoram os resultados em todas as áreas (Matemática, Leitura e Ciências), confirmando a consistência da evolução positiva dos resultados em Portugal que se verifica desde 2000 (a primeira edição do teste internacional PISA). Considerando apenas os 35 países/economias que integram a OCDE, dos 72 participantes no estudo, Portugal alcança agora as seguintes posições: 17.º a Ciências com 501 pontos, 18.º em Leitura com 498 pontos e 22.º a Matemática com 492 pontos, ficando acima da média da OCDE em todos os domínios.»

Quase que me atrevo a dizer, "contrariando algumas loucuras dos últimos ministros da Educação, os resultados (que, como as sondagens, valem o que valem) melhoraram."
É melhor subir do que descer.
O problema é se continuarmos a querer imitar os finlandeses. É que eles estão a descer...


Livraria Culsete (afinal) não fechou

#Xmas …16 dias
DECEMBER 10, 2016 ~ ONE SMALL DETAIL

Esta sugestão é, especialmente, para todos os setubalenses: este Natal vão à Culsete comprar os livros que querem oferecer!

A “nossa” mítica livraria, que esteve em vias de facto para fechar portas, abriu com nova gerência. Continua tal e qual estava, porque não havia tempo para obras antes do Natal, mas em janeiro vai renovar o seu aspeto.
20161208_160155
Retirado daqui 

Ao contrário do que escrevi dois posts abaixo, a livraia Culsete (Setúbal) não fechou.
Ainda bem!

Felicidades para quem assumiu agora a sua gerência.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Dia da Livraria e do Livreiro

Desde 2012 que se comemora o Dia da Livraria e do Livreiro, assinalando o aniversário da morte de Fernando Pessoa e de Fernando Assis Pacheco, este último... precisamente numa livraria.

Livraria Culsete, montra que assinalava este dia, no ano de 2013.
A histórica livraria de Setúbal, entretanto, já encerrou...


abriu muito os olhos e as suas mãos pararam sobre o lençol

      «Fernando Pessoa pousou a face na almofada e fez um sorriso cansado.
      Meu caro António Mora, disse, Proserpina quer-me no seu reino, é tempo de partir, é tempo de deixar este teatro de imagens a que chamamos a nossa vida, se soubesse as coisas que vi com os olhos da alma, vi os contrafortes de Oríon, lá de cima no espaço infinito, caminhei com estes pés terrenos sobre o Cruzeiro do Sul, atravessei noites infinitas como um cometa cintilante, os espaços interestelares da imaginação, a volúpia e o medo, e fui homem, mulher, velho, menina, fui a multidão dos grandes boulevards das capitais do Ocidente, fui o plácido Buda do Oriente ao qual invejamos a calma e a sabedoria, fui eu próprio e os outros, todos os outros que podia ser, conheci honras e desonras, entusiasmos e desânimos, atravessei rios e inacessíveis montanhas, guardei plácidos rebanhos e recebi na cabeça o sol e a chuva, fui fêmea em calor, fui o gato que brinca na rua, fui Sol e Lua, e tudo porque a vida não basta. Mas agora basta, meu caro António Mora, viver a minha vida foi viver mil vidas, estou cansado, a minha vela gastou-se, faça-me um favor, dê-me os meus óculos.
      António Mora ajustou a túnica. Prometeu urgia-lhe.
      Ó céu divino, exclamou, velozes ventos alados, nascentes dos rios, sorriso inumerável das ondas marinhas, terra, mãe universal, a vós invoco, e ao globo do Sol que tudo vê, vede a que estou sujeito.
      Pessoa suspirou. António Mora tirou os óculos de cima da mesa-de-cabeceira e pô-los na cara de Pessoa. Pessoa abriu muito os olhos e as suas mãos pararam sobre o lençol. Eram exactamente vinte horas e trinta.»
Antonio Tabucchi, Os três últimos dias de Fernando Pessoa


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Columbano

«Retratista psicológico, pretende cunhar a força ou a singeleza dum carácter na beleza sólida, preciosa da cor. Que outro retrato português tem o vigor, a majestade da "Luva Cinzenta"? Nenhum. Não é retrato: é efígie. É profundamente Pintura e é profundamente Arte.»
Nuno de Sampayo



Columbano Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de Novembro.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

José Saramago


«Na verdade, nasci no dia 16 de Novembro de 1922, às duas horas da tarde, e não no dia 18, como afirma a Conservatória do Registo Civil. Foi o caso que meu pai andava nessa altura a trabalhar fora da terra, longe, e, além de não ter estado presente no nascimento do filho, só pôde regressar a casa depois de 16 de Dezembro, o mais provável no dia 17, que foi domingo. É que então, e suponho que ainda hoje, a declaração de um nascimento deveria ser feita no prazo de trinta dias, sob pena de multa em caso de infracção. Uma vez que naqueles tempos patriarcais, tratando-se de um filho legítimo, não passaria pela cabeça de ninguém que a participação fosse feita pela mãe ou por um parente qualquer (...).
Em relação à data de nascimento que tenho no bilhete de identidade morrerei dois dias mais velho, mas espero que a diferença não se note demasiado.»
José Saramago, As Pequenas Memórias