Este blog mudou de nome.
Mas persisto na pretensão de que este espaço possa continuar a ser um despretensioso ponto de Permanente Reencontro de amigos, que vá servindo para dar à tramela.

"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

As cheias de 1967 e a censura - a propósito de vítimas...

Noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 - chuva intensa sobre a região de Lisboa.

1.ª edição do Diário de Lisboa de 26 de Novembro de 1967
O Diário de Notícias, três dias depois, indicava 427 mortos.
A censura impôs o fim da contagem pública das vítimas.
Nunca se chegou a saber o seu número certo. Os poderes públicos não quiseram que se soubesse da verdadeira dimensão da tragédia.

Seria demasiado triste que no Portugal pós-25 de Abril acontecesse uma situação semelhante!

As cheias inscreveram-se no debate político, na medida do possível, em 1967. O regime procurava enquadrar o ocorrido na categoria do desastre natural.

À época das inundações de 1967, a comunicação social afecta ao regime do Estado Novo punha a tónica no carácter inesperado da catástrofe, na sua origem natural - «(...) a violência do fenómeno de carácter excepcional, registado nas horas dramáticas da noite de 25 para 26 de Novembro, pode explicar cabalmente a grandeza dos prejuízos causados (...).» (nota oficiosa do Ministério do Interior) - e na «cadeia de solidariedade humana (…) sem distinção de classes», que havia significado a «vitória do homem, que a natureza tinha esmagado» (Diário da Manhã).

A oposição colocava a tónica nas condições sociais que levaram a que as fortes chuvadas se tivessem transformado num desastre humano.

Se num primeiro momento saíram notícias sobre o assunto, não tardou que a acção da censura se fizesse sentir para evitar leituras políticas críticas.
As autoridades tentaram ocultar a divulgação actualizada do número de mortos.

A 27 de Novembro, um telegrama da Direcção da Censura enviava as orientações às delegações locais: «Gravuras da tragédia: é conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos.» 

Em 29 de Novembro, determinava-se: «Inundações: os títulos não podem exceder a largura de 1/2 página e vão à censura. Não falar no mau cheiro dos cadáveres.»

A imprensa estrangeira foi acusada de divulgar "notícias tendenciosas", a propósito da forma como o governo havia actuado.

Vivemos uma época diferente, felizmente. Se a liberdade de informação é fundamental numa democracia, a responsabilidade de quem trabalha essa informação é grande. 

Os incêndios, como as cheias, inscreveram-se no debate político.

O que se tem visto da parte de muita comunicação social é demasiada excitação e pouco tino. Com múltiplas leituras e múltiplos aproveitamentos. Leituras e aproveitamentos tendenciosos.
E, muitas vezes, com títulos tendenciosos, mesmo as notícias são tendenciosas! Mais do que tendenciosas: estupidamente tendenciosas! Pode-se falar em manipulação.

Não que os jornalistas não possam interrogar a realidade e questionar os poderes - têm esse dever.
Mas interrogar a realidade e ter sentido crítico obriga a uma maior racionalização/capacidade de pensar essa realidade, a um maior conhecimento e a uma maturidade que a maioria dos jornalistas visivelmente não tem. 
Depois, comunicação social e redes sociais andam demasiado ligadas entre si e este relacionamento exige novidades a todo o momento - a actualidade ferve e não se pensa. Pensar exige tempo, essa é outra das suas condições.

Porque as opiniões são leituras (mais) tendenciosas (ter opinião não significa ser neutro), a participação dos comentadores vem acentuar essa relação e reforçar outras ligações: as ligações a programas político-ideológicos, associados a interesses financeiros.  
Na actual situação, com os comentadores acentuam-se os interesses ideológicos que, no caso da direita, não encontram expressão a nível da capacidade política dos dirigentes dos partidos da oposição. Esses comentadores procuram compensar a força que a direita política não mostra. 


A urgência do tempo presente dificilmente os faz aguentar, uma legislatura que seja, o "jejum do poder".


Esta crónica de Camilo Lourenço, no início deste mês, é um excelente exemplo.
A meio do texto, este comentador afirma:
«No meio destas tragédias eu só espero uma coisa: que o líder da oposição, Passos Coelho não fale. Ou, se falar, que se faça acompanhar, nas suas viagens pelo país, de algum assessor com dois dedos de testa. E, já agora, que faça o que ele manda. Estou farto de ver Passos Coelho a dar mão a António Costa quando este se está a afundar...»

Os destaques são meus, mas a frase sublinhada é um programa de intenções: "faça o que ele manda"! Seja um pau mandado - é isso que o autor espera de um (do seu) líder político.
Agora não estrague, Pedro...

Que os poderes públicos democráticos não sigam o exemplo do regime Estado Novo e que o poder político se saiba afirmar democraticamente e não se cole a interesses duvidosos.
É que às vezes (demasiadas, para o meu gosto!) põe-se a jeito! 
Agora não estraguem!


terça-feira, 25 de julho de 2017

Há mais mortos para além do défice

Entro nas férias ao som da discussão em torno do número de mortes no incêndio de Pedrógão.

A velocidade e a intensidade da troca de informação e de "mimos" ultrapassam a nossa capacidade de absorção e o nível necessário de bom senso.

A campanha política instalou-se em cima de mortos.
Penso que ultrapassámos a questão do défice.



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Modigliani

«Ele comporta-se como um fedelho mimado, mas não lhe falta inteligência. Temos de esperar para ver o que se esconde por detrás deste miúdo. Um artista, quem sabe?»
(do diário da mãe de Modigliani, teria ele 11 anos e sofrido um caso grave de pleuresia)



Amedeo Modigliani nasceu a 12 de Julho de 1884


terça-feira, 11 de julho de 2017

Árvores mediterrânicas

Em selo.
As edições dos selos portugueses são uma maravilha!
É pena que já não se escrevam tantas cartas e postais, forma mais popular de conhecer os selos (agora mais reservados aos filatelistas) e mais perene de conservar a comunicação escrita - no futuro será mais difícil haver a edição da correspondência entre escritores, artistas, pensadores...  


Esta do catapereiro!... (já vi que é uma pereira brava...)


Camille Pissarro

Camille Pissarro teria feito ontem 187 anos.
Ele é um pouco o "parente pobre", porque esquecido ou pouco valorizado, dos pintores impressionistas, mas foi o único que participou nas oito exposições do grupo.

A curiosidade maior, extra-pintura, é o facto de a sua família ter ascendência portuguesa. O seu pai, Abraham Frederic Gabriel Pissarro, já terá nascido em França (Bordéus), oriundo de uma família judaica de Bragança que, em finais do século XVIII, emigrou para a zona de Bordéus, onde havia uma comunidade de judeus portugueses, aí refugiados desde os tempos da Inquisição.



sábado, 8 de julho de 2017

O mau estado da vedação

No meu primeiro ano na Escola Paulo da Gama, longínquo ano lectivo de 1985-86, estreei-me como Director de Turma.
A escola tinha, então, uma vedação em mau estado, a que o Ministério da Educação não acudia.

Um dia fui avisado que alunos da minha direcção de turma tinham saltado a rede para sair da escola.
Zeloso dos meus deveres, na primeira oportunidade inquiri a turma: "Quem se atreveu a saltar a rede?"
Os alunos foram honestos e tornaram difícil contar os braços que se puseram no ar.
Desconcertado, fiz a pergunta alternativa: "Quem é que não saltou a rede?"
Do conjunto de 27 alunos, só o David e o Luís Miguel puseram o braço no ar.
Nessa altura, alguém disse: "Não saltaram porque passaram por baixo!"

Ao contrário dos meus alunos, no recente caso de Tancos, as armas saíram pelo portão.


Telma Monteiro campeã de judo

Venho do fb, onde, há poucas horas atrás, uma amiga saudou Telma Monteiro pela conquista de mais um campeonato europeu de judo.
O título conquistado é... o de 2015.

Apesar da notícia não ser nova, continua a recolher muitas reacções positivas - já tem umas dezenas de likes - e há quem lamente que a notícia não esteja a ser mais divulgada (neste momento, penso mesmo que a minha amiga é a única que o está a fazer!).


domingo, 25 de junho de 2017

Além do cume

Socorro-me 
das rosas do poema

verso a verso
no forro das palavras

buscando a luz
sedenta
e no seu lume
a encontrar o que há

aquém do nada
para chegar depois

além do cume
Maria Teresa Horta, in Poesis



quinta-feira, 22 de junho de 2017

Se uma greve incomoda pouca gente, uma fuga incomoda muito mais

A greve dos professores marcada para o dia de ontem foi limitada pela declaração dos serviços mínimos por parte do Governo, atendendo a que iria afectar a realização de provas de exame.
Por outro lado, a situação que o país viveu nos últimos dias tirava todo o impacte que a greve ainda poderia ter.
O sucesso destas greves, em grande parte, mede-se pelo reflexo que têm na comunicação social. 
Os reflexos desta greve iriam ser limitadíssimos. Mas eis que... houve uma fuga de informação!

Na gravação, pode ouvir-se a estudante dizer: «Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive.»

E assim se vê como uma sindicalista só, uma presidente do sindicato de professores, "uma comuna" (nas palavras da estudante), uma Presidenta empreendedora (diria eu), conseguiu aquilo que as principais estruturas sindicais dos professores não conseguiram.

Agora tem toda a atenção da comunicação social...


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Óscar Lopes e António José Saraiva

Na emissão Vultos da História e da Cultura dos CTT, Óscar Lopes e António José Saraiva.


Dois académicos distintos, autores, em parceria, de “História da Literatura Portuguesa”.
Homenagem mais do que merecida!


Os arqueólogos só empatam!...

Quem explica porquê?
É que parece estranho!...



Canções de Labor e Lazer

E eu tenho o maior prazer em apresentar as Canções de Labor e Lazer, da Ana Catarina.
(pese o atraso com que o faço, mas o tempo e a disposição não têm sido grandes...)

«A canção sempre foi companheira de vida do homem. Parece que nasce já com ela, carrega-a, molda-a de tal forma que, quando esta se solta, vem à superfície com a fisionomia exacta de quem a cantou, com as mesmas dores no corpo que o trabalho curva, as mesmas angústias, amores e crenças. 
As “canções de labor e lazer” não são apenas melodias bonitas e populares, são também memórias de um embalo no berço, de um baile, de uma romaria, do ecoar de vozes de homens e mulheres nos campos sem fim, ao compasso da enxada e da foice.»


Ana Tomás e Ricardo Fonseca apresentam o seu mais recente trabalho “Canções de Labor e Lazer”, com melodias tradicionais e poesia popular portuguesas. As canções que compõem o álbum eram cantadas por homens e mulheres enquanto trabalhavam nos campos, em romarias e procissões, em bailes ou no singelo acto de embalar uma criança. Com arranjos de Ricardo Fonseca, cada canção ganha uma sonoridade nova, com influências de linguagens musicais várias, nunca perdendo, no entanto, a raiz portuguesa tão patente no som único das violas tradicionais por ele interpretadas. Também a voz de Ana Tomás, com formação em canto lírico, e as interpretações de cada instrumentista tornam este álbum singular no panorama da música tradicional portuguesa.





Ana Tomás (voz)
Ricardo Fonseca (cordofones)
Fernando Frias (piano)
Gil Pereira (contrabaixo)
Tiago Araújo (percussão)


“I love the smell of napalm in the morning”


É difícil suportar as reportagens dos incêndios, sobretudo as televisivas, aquelas em que a ignorância, a estupidez e a falta de escrúpulos de alguns ditos jornalistas vem ao de cima.

É difícil suportar tantos comentadores especialistas - passem-lhes uma mangueira para as mãos!

É difícil suportar notícias fantasiosas e os comentários consequentes nas redes sociais, para além dos comentários desconsequentes de quem, devendo ter dois palmos de testa, acredita na primeira patranha que lê, ouve ou vê.

É difícil suportar a filha da putice de determinados artigos jornalísticos de pretensos jornalistas, como o Godofredo Asdrúbal, perdão, o Sebastião Pereira, esse portentoso jornalista, no El Mundo...



... que o Observador, o Expresso, a SIC, etc. reproduzem...


... sublinhando, objetiva e desinteressadamente, as profecias políticas.

Se uma geringonça incomoda muita gente, a possibilidade de duas geringonças incomoda muito mais!...

A não ser que tudo isto seja culpa dos serviços secretos russos...
Ou do calor do Verão!


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Guernica - 80 anos

26 de Abril de 1937 -  Aviões nazis, às ordens do general Franco, atacaram a cidade basca de Guernica, no seu dia de feira. Numa população de 7 mil pessoas, 1654 mortos e 889 feridos.
O quadro foi exposto na Exposição Internacional de Paris de 1937.

Guernica
Picasso pintando Guernica, no seu atelier

Pormenor de Guernica

Pormenor de Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, de Goya
O mesmo grito contra a desumanidade


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Lluis Llach distinguido pela SPA

Num dia dedicado à cultura catalã, Lluís Llach, compositor, poeta e músico, recebeu hoje a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

Lluís Llach, que brevemente fará 69 anos, já pôs fim à sua carreira, 40 anos depois de a ter iniciado em finais da década de 1960, no meio universitário catalão.
A Espanha vivia sob a ditadura de Franco e Lluís Llach, contestatário ao regime, acabaria por se exilar em Paris (1970 ou 71). 

Em Maio de 1975, actuou num Canto Livre, no Teatro S. Luís (Lisboa), primeira vinda a Portugal.
Foi nomeado Artista para a Paz, pela UNESCO, em 1999.

Recordo a primeira canção que ouvi cantada por Lluís Llach, I si canto trist..., logo após o 25 de Abril de 1974, acontecimento a que dedicaria a canção Abril 74.

Impressionante pelo ambiente de comemoração da liberdade pós-franquista a sua actuação, em Janeiro de 1976, no Palácio dos Desportos de Barcelona. Uma exaltação festiva o disco Barcelona Gener de 1976, que resultou da gravação do conjunto de três recitais, no seu regresso a Espanha (à sua Catalunha), dois meses depois da morte do general Franco.
Impossível não se sentir que a liberdade estava a passar por ali...


Até o disco treme!


Este lado B do LP de vinil inclui a canção Abril 74.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Jesus no Monte das Oliveiras

«Jesus saiu para o Monte das Oliveiras, como era seu costume. Os discípulos foram com ele. Quando lá chegou, disse-lhes: "Peçam a Deus para não caírem em tentação." Afastou-se deles a uma curta distância e, pondo-se de joelhos, orava assim: "Pai, se for do teu agrado, livra-me deste cálice de amargura. No entanto, não se faça a minha vontade, mas sim a tua." Nisto apareceu-lhe um anjo do Céu que veio dar-lhe forças. Jesus estava muito angustiado e orava ainda com mais fervor, enquanto o suor lhe caía no chão, como grandes gotas de sangue.
Depois da oração, levantou-se e foi ter com os discípulos, mas encontrou-os abatidos pela tristeza. "Estão a dormir? Levantem-se e orem, para não caírem em tentação", disse-lhes.
Ainda Jesus estava a falar quando chegou uma multidão. À frente vinha Judas (...)»
(Lucas, 22:39-47)

El Greco, A oração no Monte das Oliveiras
Na pintura de El Greco, é o anjo que parece oferecer o "cálice de amargura" e Jesus, apesar de "protegido" pelo penedo, será descoberto e preso pelos guardas que se aproximam, conduzidos por Judas. Num plano inferior ao anjo, os três apóstolos que o acompanharam dormem numa concavidade.

Esta é uma das várias versões de El Greco para a mesma cena bíblica. As suas pinturas atingem uma capacidade criativa estranha aos cânones da época, o que levou a que alguns partidários da contra-reforma levantassem a questão de que as cenas de El Greco não estimulariam o desejo de rezar.


A última ceia

«Quando chegou a altura, Jesus sentou-se à mesa com os apóstolos e disse-lhes: "Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de morrer."»
(Lucas, 22:14-15)

El Greco, A última ceia


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira

Faleceu hoje, no Porto. Tinha 91 anos e foi uma importante especialista portuguesa em Estudos Clássicos, reconhecida pela sua grande competência.

Depois do curso em Coimbra e da investigação feita em Oxford, no início da década de 1950, o que era algo quase impensável na sociedade portuguesa da época, foi a primeira mulher a doutorar-se pela Universidade de Coimbra (1956), onde se tornou, também, a primeira catedrática (1964) e onde deu aulas até 1995. Foi autora de uma vasta obra de divulgação da cultura clássica.

Em 2001, numa entrevista ao jornal Público, comparando o homem actual e o clássico, afirmou:
“Em relação aos antigos, a diferença espiritual, intelectual, não é tão grande como parece: o homem é sempre o mesmo. Infelizmente, não perde os defeitos que tinha, por vezes não conserva as virtudes.”

Maria Helena Rocha Pereira, em 2010, quando recebeu o
Prémio Vida Literária,
atribuído pela Associação Portuguesa de escritores


domingo, 12 de março de 2017

Raul Brandão, Húmus

«- A alma - diz ele -, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação. Há-os cuja alma é duma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes de a matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. É assim que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus. Nos vegetais, nas árvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingénua e humilde, que se exterioriza em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, vem à tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos minerais, na pedra concentrada e recalcada, que dor inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flor.»
Raul Brandão, Húmus

Celebram-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e os 100 anos da edição de Húmus.



«Um livro como Húmus pode escrever-se num surto de arrebatada actividade criadora - e nem de outra maneira sabia e podia Raul Brandão escrever. O que todavia não é possível é conceber que uma obra com a riqueza e a complexidade desta possa surgir senão depois de uma larga e reiterada meditação - neste caso a sempre repetida e dramática equacionação das incógnitas que de há muito estavam na base da problemática existencial do escritor. Deste livro se poderia dizer que contém e amplia todos os outros no sentido de que nele se concentram e desenvolvem, a nível literário até aí ainda não atingido, todas as inquietações que fizeram deste indisciplinado pesquisador de mistérios um originalíssimo espírito metafísico.
Quanto a ser esta a sua melhor obra não há qualquer dúvida. Assim unanimemente os críticos o têm entendido e assim a considerava o próprio Raul Brandão, conforme testemunho de Câmara Reis.»
Guilherme de Castilho, Vida e obra de Raul Brandão


Raul Brandão - Só a luz!

«Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho?... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz para mim é a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a num êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta.»
Raul Brandão, Memórias III

De um escritor frequentemente sombrio...
mas que consegue pintar com palavras e tintas vivas (porque nunca foi de meias-tintas).

Caricatura da autoria de Miguel Salazar


Raul Brandão - 150 anos

«Tenho diante de mim a sua figura enorme, vejo-o caminhar, umas pernas imensas sustentando um corpo mais pequeno, andar um pouco desarticulado, apoiado à sua bengala (...) Não esqueço mais o seu olhar infinitamente azul, a sua cabeça aristocrática, a sua voz a falar-me de coisas extraordinárias.»
Carlos Carneiro (escrevendo sobre Raul Brandão)

Raul Brandão na caricatura de Stuart Carvalhais (1927)


domingo, 5 de março de 2017

Eu hoje tremi!



Mas depois compreendi: "Ah!!! É o Bruno de Carvalho!"
Há gente que não se enxerga!!!


P.S. - E como é que as televisões alteram a sua programação, para estarem horas a analisar e a comentar eleições para a presidência de um clube de futebol, promovendo gente sem educação?


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Almeida Garrett


Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia...
Folhas caídas



Almeida Garrett nasceu nesta casa (no Porto), a 4 de Fevereiro de 1799.


Amadeo - Um fenómeno único na pintura portuguesa


«Amadeo foi um inventor: entendeu o cubismo e criou os primeiros quadros abstractos que dele derivaram, adiantou-se ao "purismo", e duma estética futurista passou ao encontro da aventura poética, certo com o movimento da pintura europeia que não podia conhecer no seu isolamento português de então.
A sua obra, truncada pela morte, e toda feita numa idade adolescente de pintor (...) é um encadeamento de períodos de experiências e de invenção, e pode ser verificada, a par e passo, como sendo ora convergente, ora paralela, ora precursora da pintura europeia sua contemporânea.
É um fenómeno único na pintura portuguesa (...)»
José-Augusto França, Amadeo


No Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), até ao próximo dia 26, uma exposição que evoca a que se realizou em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa, em Dezembro de 1916. 
Almada Negreiros apresentou essa exposição como "mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia".




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

John Wetton

John Wetton (1949-2017)
Baixista e vocalista dos King Crimson, na trilogia Larks' Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Red (1973 - 1974), onde o conheci (de ouvido), numa época de descobertas.
Tocou ainda noutros grupos, como os Asia.

  


sábado, 7 de janeiro de 2017

O melhor exemplo de coragem e inteligência

Li n' A Bola de hoje uma entrevista de Júlio Pomar.
A linhas tantas, diz o entrevistador:
«- A sua juventude foi marcada por convicções políticas e por activismo, particularmente ao lado de Mário Soares, com quem partilhou cela na prisão. Ele agora está hospitalizado, imagino que lhe custe vê-lo assim.
- Bastante. Ter vivido com ele num local fechado, presos, mostrou-me que estar num espaço como aquele obriga a que as pessoas se revelem. O Mário foi o melhor exemplo de coragem e inteligência da nossa geração.»

Retrato oficial do Presidente Mário Soares, da autoria de Júlio Pomar

Mário Soares morreu com Maria Barroso. Sobreviveu-lhe o corpo, até hoje.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nos idos de 75

Alguém tinha de lavar a loiça...

... depois do jantar dos meus anos
(mais novo do que aquilo que eu sou hoje)


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Entrevista (e notícia) insólita(s)

Algo de errado se passa quando o comediante e o entrevistado são a mesma pessoa e não colaboram (ou não colabora) entre si...
Dupla personalidade, talvez...



Burocracias que não compreendo...

Na compra do passe mensal de uma das empresas públicas de transporte indicadas, se pretender uma factura com o número de contribuinte... preencho o impresso:

Se pretender em papel... ainda tenho de a ir levantar em locais que poderão não ser o posto de venda, no horário de expediente, claro, e sujeito à disponibilidade de senhas!!!
Na net sempre é mais fácil!
Terá de ser tão complicada a passagem de uma factura com número de contribuinte?
As empresas podem proceder desta forma?


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Para um começo feliz de ano...


Uma ida à Galileu para comprar uns livros!

e outros...
como um sobre El Greco, finalmente!
Em dia de vento e chuva...



Pena foi que a chuva, à tarde, me entrasse pela casa dentro e obrigasse a mudanças...
Parece que a felicidade nunca é completa!... 


domingo, 1 de janeiro de 2017

Cozido de grão

A receita do Manel bateu certa!
O cozido estava mesmo bom!

Não se vê a hortelã!...

«Desde os tempos dos romanos passando pela ocupação árabe, o grão foi considerado, juntamente com a fava, um dos legumes mais consumidos. O cozido de grão é uma consequência desse hábito porque junta ao modesto mas saboroso legume, a riqueza das carnes que são entendidas também como as mais saborosas. Existem receitas de cozido de grão fixadas há mais de mil anos, embora as carnes que o compunham, na época, fossem carne de carneiro e não de porco.»
Alfredo Saramago, Joaquim Madeira, Clara Roque Vale e Manuel Fialho
Gastronomia e Vinhos do Alentejo

P.S. - Foi com carne de porco; há quem não goste de borrego...


Façamos da Paz a nossa prioridade

No Dia Mundial da Paz...


Excerto da primeira mensagem de António Guterres como Secretário-Geral da ONU, com o apelo a que Façamos da Paz a nossa prioridade .

Devemos sempre começar (o que quer que seja) com boas intenções, com bons princípios e com optimismo.
A realidade é que nem sempre está pelos ajustes!