"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

sábado, 30 de abril de 2016

Lisboa do Tejo

No regresso...




Papoulas saltitantes

 A caminho de uma jornada de trabalho...



Paulo Varela Gomes

«Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.
(...)
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.»

Paulo Varela Gomes, Morrer é mais difícil do que parece

Revista Granta n.º 5, 

Paulo Varela Gomes (1952 - 2016)


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Os paquetes que entram de manhã na barra

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.


Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem os meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Álvaro de Campos (de Ode Marítima)


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Para que serve a História

Do passado estamos falados!

Fernando Rosas - a última (?) lição
A lição de jubilação
«Não pode negar-se que uma ciência parece sempre ter algo de incompleto se não for capaz, mais cedo ou mais tarde, de nos ajudar a viver melhor. Como não há-de ser, em particular, muito forte tal sentimento em relação à história, se esta se afigura tanto mais claramente destinada a trabalhar para proveito do homem quanto é certo ter o próprio homem e seus actos por matéria? De facto, uma velha propensão, a que há-de atribuir-se, pelo menos, um valor de instinto, leva-nos a pedir-lhe os meios de orientar a acção;»
Marc Bloch, Introdução à História


O Homem; As Viagens




O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?

(...)
Carlos Drummond de Andrade


E mais aqueles de que não se sabe!




Para adoração de todos...

Tarefa cumprida!
Parabéns a quem sonhou que era possível.
("Louco é quem não sonha")


Integrando a colecção do MNAA, A Adoração dos Magos irá tomar o seu lugar na Galeria de Pintura e Escultura Portuguesa, a qual irá reabrir depois de obras de renovação e requalificação.


Louco é quem não sonha

«O comunismo morreu e o capitalismo ameaça matar-nos a todos. A corrupção da classe política, as crises de refugiados, o aquecimento global, tudo isto são problemas decorrentes da própria natureza do sistema capitalista. É urgente procurar outros caminhos. Sonhar não é loucura. Loucura, hoje, é não sonhar. Na certeza, porém, de que esses caminhos, esses sonhos, só podem ser encontrados por meios pacíficos e democráticos. A democracia, essa utopia primordial, não pode ser posta em causa. Todos somos poucos para a defender.»
José Eduardo Agualusa

Este texto foi originalmente publicado no jornal O Globo.



terça-feira, 26 de abril de 2016

O ensino de História (para não ficarmos uma Junta de Freguesia)




Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá-Carneiro por João Abel Manta
Mário de Sá-Carneiro suicidou-se, em Paris, a 26 de Abril de 1916.

"Morro à míngua, de excesso"


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Manuel Alegre - Prémio Vida Literária

Prémio Vida Literária 2015/2016 para Manuel Alegre.
Escolha unânime da direcção da Associação Portuguesa de Escritores, tendo em consideração os 50 anos de percurso literário e uma obra "símbolo da luta pela liberdade".

O Prémio neste dia fica-lhe bem.

Poema com h pequeno

Cantarei o homem criador crucificado
em suas máquinas. Caçador caçado
por suas armas. Tocador tocado
por suas harpas.
Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.
Cantarei o homem: esse mortal-imortal
meu amigo-inimigo. Meu irmão.

Cantarei o homem que transforma tudo
e tão dificilmente se transforma.
Ele que se escreve com h pequeno
em todas as coisas que são grandes.

Cantarei o homem no plural.
Ele que é tão singular
tão impossível de ser outro
senão ele próprio: o homem.

Cantarei o homem vezes homem até à massa.
Cantarei a massa vezes massa até ao homem.
Porque não sei de outra guerra. Não sei de outra paz.
Não sei de outro poema que não seja o homem.

O Canto e as Armas



Sabem lá eles o que é sonho!

«As revoluções começam sempre pelo beijo de uma desconhecida na rua. Pela vitória do Sonho.

De súbito, desembarcámos em bandos ardentes numa ilha de gritos e pomo-nos em marcha, enterrando-nos até ao pescoço nas nuvens dos caminhos em frente, convencidos de que não tardaremos a encontrar nos planaltos árvores de prata que nos virão oferecer frutos com dedos de seiva delicada e as flores voarão dos prados em forma de borboletas azuis, para enfeitar os cabelos das crianças.
Que bom!, cantarmos em coro "o povo unido jamais será vencido", e darmos as mãos, e abraçarmos os amigos e beijarmos as camaradas e escrevermos nas paredes "Abaixo o pesadelo!", e rir, rir, rir, para meter inveja ao futuro e irritar os tiranos.
A vida só principia a morder, quando descobrimos que, afinal, o Sonho chamado Revolução apenas torna mais visível a realidade e nos mostra como o mundo é.»


José Gomes Ferreira, Revolução Necessária

Fotografia de Eduardo Gageiro


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)



domingo, 24 de abril de 2016

Festas da Música e Liberdade

Terminou há pouco o concerto de encerramento dos Dias da Música, que acompanhei pela TV, chegado, precisamente, do CCB.
Terminou em festa e, nesse aspecto, os Dias são e dão continuidade à Festa da Música. São uma democratização da música, de uma música menos costumeira mas que pode ser não menos popular.
É uma festa familiar! E, assim, a Música confirma-se como uma parte importante das nossas vidas, primordial para o nosso bem estar.

Os dois concertos a que assisti hoje, em salas cheias, foram o protótipo do confronto de diferenças culturais e históricas: música medieval galaico-portuguesa, sefardita e de raízes árabes face a duas obras de Mozart intervaladas por uma imprevisível peça contemporânea de Miguel Azguime.
Como indica o próprio tema dos Dias da Música, trata-se de uma viagem à volta do mundo.
Pena serem só 3 dias e não os 80 do Phileas Fogg.

A noite termina em beleza, estrelada e com uma esplêndida lua no céu sobre a foz do Tejo, a antever um bom dia com outra festa: a dos 42 anos da liberdade.
Só essa liberdade possibilita festas da música... ou que a poesia ande na rua.



Amor, que o gesto humano na alma escreve

 Amor, que o gesto humano na alma escreve, 
Vivas faíscas me mostrou um dia, 
Donde um puro cristal se derretia 
Por entre vivas rosas e alva neve. 

A vista, que em si mesma não se atreve, 
Por se certificar do que ali via, 
Foi convertida em fonte, que fazia 
A dor ao sofrimento doce e leve. 

Jura Amor que brandura de vontade 
Causa o primeiro efeito; o pensamento 
Endoudece, se cuida que é verdade. 

Olhai como Amor gera, num momento 
De lágrimas de honesta piedade, 
Lágrimas de imortal contentamento. 

Luís de Camões



Dias da Música 2016 - Mendelssohn

A volta ao mundo...
Antes da orquestra e da última sinfonia de Mendelssohn.
(a ordem de numeração das sinfonias é um mistério!)
Em dia dos 400 anos da morte de Shakespeare, podia ter sido o Sonho de uma Noite de Verão.





sábado, 23 de abril de 2016

Dia do Livro




Tributo a Shakespeare

Peter Hammill



A memória de Shakespeare

«O acaso ou o destino deram a Shakespeare as triviais coisas terríveis que todo o homem conhece; ele soube transmutá-las em fábulas, em personagens muito mais vívidas que o homem cinzento que as sonhou, em versos que as gerações não hão de deixar cair, em música verbal.»
Jorge Luís Borges, A Memória de Shakespeare


Como Cervantes, morreu há 400 anos.
Ter-se-ão encontrado, de certeza absoluta...


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Ferragiais de Lisboa



Como as coisas humanas não sejam eternas

«Por fim, chegou o último de Dom Quixote, depois de recebidos todos os sacramentos e depois de haver abominado com muitas e eficazes razões dos livros de cavalarias. Achou-se o escrivão presente e disse que nunca lera em livro algum de cavalarias que algum cavaleiro andante houvesse morrido em seu leito tão sossegadamente e tão cristão como Dom Quixote; o qual, entre compaixões e lágrimas dos que ali se acharam, deu seu espírito, quero eu dizer que morreu.»

Miguel de Cervantes morreu a 22 de Abril de 1616.
Há 400 anos.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Menestrel das Alagoas





Quem é esse viajante
Quem é esse menestrel
Que espalha esperança
E transforma sal em mel?

Quem é esse saltimbanco
Falando em rebelião
Como quem fala de amores
Para a moça do portão?

Quem é esse que penetra
No fundo do pantanal
Como quem vai manhãzinha
Buscar fruta no quintal?

Quem é esse que conhece
Alagoas e Gerais
E fala a língua do povo
Como ninguém fala mais?
Quem é esse?

De quem essa ira santa
Essa saúde civil
Que tocando a ferida
Redescobre o Brasil?

Quem é esse peregrino
Que caminha sem parar?
Quem é esse meu poeta
Que ninguém pode calar?

Quem é esse?

Em 1983, Milton Nascimento e Fernando Brant lançaram esta canção, de homenagem a Teotônio Vilela, deputado estadual, vice-governador e senador, natural do Estado de Alagoas. 

Teotônio Vilela, tendo militado num partido político de apoio ao Governo militar instituído com o golpe de 1964  - ARENA - acabou por evoluir politicamente para a defesa da democratização do Brasil. No final da década de 1970, aderiu à Frente Nacional pela Redemocratização (e viria a filiar-se no Movimento Democrático Brasileiro, o partido da oposição, a 25 de Abril... de 1979).
Essa Frente patrocinou a candidatura do general Euler Bentes Monteiro (um Bentes!) à presidência, em 1978. Euler Bentes Monteiro perderia, com 39,9% dos votos de um colégio eleitoral (226 votos contra 355 do general João Baptista Figueiredo).

A canção Menestrel das Alagoas tornar-se-ia um dos hinos da campanha das Diretas-Já, movimento que exigia que o Congresso aprovasse a emenda constitucional instituindo a realização da eleição directa para a presidência da República, visando pôr fim ao regime militar.
As eleições de 1985, com a vitória de Tancredo Neves, foram as últimas por via indirecta, tendo encerrado a ditadura militar.

O disco de Milton, Milton Nascimento ao vivo, inclui essa canção e Coração de Estudante, o outro "hino" das Diretas-Já
Comprei esse LP no dia do meu casamento, em 1984.
E lembrei-me destas músicas (e da sua história) a propósito dos acontecimentos no Brasil.

Com tanto caminho andado, por onde irá a democracia brasileira?

Lisboa vista da doca






domingo, 17 de abril de 2016

Está tudo doido!...

Irracional!!!
Quem pode confiar neste estado de loucura e de descontrolo?


Qual será o resultado disto?
(o futuro, não os números da votação!)

Quando dizemos mal da nossa Assembleia da República...

P.S. - E todos os meios são legítimos!?


Gares Marítimas com os painéis de Almada Negreiros

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


«Tejo, lombada do meu poema aberto em páginas de Sol (...) Nós temos todos os rios de que precisamos. O Tejo é o maior; nasceu em Espanha, como outros, mas não quis ficar lá (...) Nós também temos varinas que vão pelas ruas como barcos sobre o Mar. - Elas sabem a sal. E trazem o Mar nas suas canastras.»
Almada Negreiros, Histoire du Portugal par Coeur



Dois dos painéis da Gare Marítima de Alcântara
(sobre Lisboa e o Tejo)


Janelas das Gares Marítimas

Ah, o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o Único.
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha.
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria.
Álvaro de Campos, Ode Marítima








Gares marítimas de Alcântara e de Rocha do Conde d'Óbidos.


Camões em tapetes

Segundo José de Guimarães

I

II

III

IV

V

em Tapeçarias de Portalegre 


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Amadeo a caminho de Paris (2016)





Amadeo a caminho de Paris (1906)

«Há os que partem e retornam, tendo Paris como farol donde chegam as novas do Planeta. Cumprir-se nessa cidade, com os boulevards descerrados às efemérides e ao sonho, parecerá aos insatisfeitos o único risco a correr, o único sobejante da apatia a que o berço os condenou. Daí que se torne instante abalar.»

«Lisboa, quinta-feira. Minha Maman: Chego agora de Linda-Pastora sob a luz offuscante dum sol que não quer acreditar que o inverno está próximo. (...) Eu e o meu camarada embarcamos amanhan. O tempo está limpo e sereno e o vapor já nos espera ali no Tejo. Tenho uma grande dôr de os deixar, a si, ao santo do Papá e a todos. Além disso, eu sou um espírito dramatico e a minha alma representa sempre uma tragedia em que eu sou o unico espectador. Contudo, no meio deste luto, eu vou rindo - rindo diabolicamente. Isto não quer dizer que me julgue infeliz - não. Se qualquer quizesse trocar a sua infelicidade pela minha desgraça eu não trocava. Os meus destinos só estão bem commigo, ou por elles triumpho ou por elles sou esmagado. Adeus minha Mãe, esperam-me para comprar bilhete - adeus. Mil coisas do coração do seu filho Amadeo.»

«A caminho de Paris, com Francisco Smith, perscrutando da coberta ondulante o deslizar da chuva pelas vidraças, Amadeo visaria mais à frente que à retaguarda.»


Mário Cláudio, Amadeo